A estudante que tentou fraudar o Enem enquanto batia panela é o retrato do Brasil de Temer

08.11.2016
Do blog DIÁRIO DO CENTRO DO MUNDO
Por Mauro Donato

Sofia MacedoSofia Macedo

Colar na prova, quem nunca? Aquela olhadinha rápida, uma cutucada no colega CDF da frente: “Sabe a oitava?” Inocente e inofensivo.

Mas quando se está na vida adulta, em um processo seletivo, a coisa muda de figura. Na vida adulta, em processo seletivo e praticando suborno, a situação muda de patamar. Na vida adulta, em processo seletivo e praticando suborno depois de ter batido panela de forma desequilibrada pelo ‘fim da corrupção’ e gritando Fora Dilma, é de uma hipocrisia espetacular.

Em mais um episódio de máscara que cai (já foram centenas de manifestantes adoradores de Sergio Moro flagrados em casos de corrupção e a explosão de denúncias de malas de dinheiro nos movimentos que tramaram o golpe é sintomática), uma estudante que apoia a república de Curitiba foi pega no pulo.

Sofia Azevedo Macedo estava com um ponto eletrônico no ouvido. Uma central que ficava em um hotel em Montes Claros (MG) enviava o gabarito e a estudante tossia uma vez para sinalizar que havia compreendido.

Tossir duas vezes significava que o interlocutor deveria repetir. Pela ajudinha na trapaça, o custo girava entre R$ 150 mil a R$ 180 mil, segundo a Polícia Federal.

A operação Embuste foi realizada em Minas Gerais, Bahia e Ceará com o propósito de desmantelar uma quadrilha especializada em fraudes no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). A Justiça emitiu vinte e oito mandados, quatro de prisão temporária.

No cumprimento dos mandados foram apreendidos os equipamentos usados pela turma criminosa e os áudios captados em escutas autorizadas pela Justiça revelam que antes do exame era feito um teste para verificar se a geringonça toda estava funcionando, se o candidato conseguia escutar a voz de quem iria repassar as respostas para ele. Em um desses áudios, a estudante

Sofia estava em contato com um homem identificado como Jonathan, que a polícia diz ser Jonathan Galdino dos Santos.

Jonathan: Sofia, tá me escutando? Dá duas tosses aí, por favor.

Sofia: tosse duas vezes, sinalizando que estava tudo ok.

Jonathan: Correto. Eu vou falar cinco palavras: casa, carro, tatu, prédio e cachorro. Entendeu? Dá uma tossida.

Sofia: tosse uma vez novamente.

Jonathan: Pronto, ok.

“Pela primeira vez constatamos o retorno de áudio por parte do candidato. A maneira que ele usava para demonstrar ao interlocutor que compreendia ou não o gabarito era por intermédio da tosse”, disse o delegado Marcelo Freitas.

Quem tem entre R$ 150 e R$ 180 mil para ‘investir’ assim? Estudantes oriundos das classes menos favorecidas? Por óbvio que não. O que vale um investimento desse montante? Cursos de mensalidades altas, historicamente frequentados pela elite. O target da quadrilha eram os candidatos que almejam principalmente os cursos de medicina.

Sofia tem 19 anos, nasceu em Carbonita (MG) e hoje vive em Belo Horizonte. Seus posts em redes sociais nem são majoritariamente engajados. Em 2014 publicou algumas vezes em apoio a Aécio Neves e compartilhou memes que ridicularizavam Dilma Rousseff.

Lamentou a vitória da petista e depois comemorou o impeachment. Em dezembro de 2013 viajou para Montes Claros, cidade que serviu agora como sede da quadrilha. Só coincidência? Talvez, mas vale a investigação.

De resto, seus posts são relacionados a maquiagem (que faz em si mesma). Muito bonita, agora tem a página recheada de comentários como ‘bonitinha mas ordinária’, ‘vai ser bonita assim lá na cadeia’, ‘olha a corrupta’. Enfim, Sofia se assemelha ao despolitizado clássico que apenas repete o que seu meio social propaga sem refletir.

Isso não a isenta de nada, claro. Sempre que possível, suas postagens mais ‘cabeças’ revelam o conservadorismo. Em uma delas enalteceu a Indonésia por possuir pena de morte enquanto o Brasil não. Em outra, pediu ‘punição rígida e prisão’ para infratores de leis de trânsito. Como se vê, seu lema é o bom e velho ‘leis para os outros’.

Em resumo: (mais) uma daquelas figuras que estiveram exigindo a expulsão de corruptos faz parte da parcela da população que tem R$ 150 mil para sacanear estudantes de escola pública que mal têm grana para o busão que os levará ao local de exame. Mais uma representante do ‘papai pagou, passou’.

Satisfeito, coxinha? Entendeu? Então tosse uma vez aí.

*****
Fonte:http://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-estudante-que-tentou-fraudar-o-enem-enquanto-batia-panela-e-o-retrato-do-brasil-de-temer-por-donato/

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