VEJA COMO A MÍDIA MANIPULA A NOTÍCIA:Desafio aceito – quinta coluna é quem mesmo?

18.01.2017
Do blog OBJETIVANDO  DISPONILIZAR

quintacoluna

Olá! Feliz ano novo pra você também!

Bora tirar a poeira deste caldeirão aqui porque a coisa tá feia, muito feia.

Cheguei de viagem ontem com este desafio no grupo das Letras da UnB no Facebook, assim mesmo com todas as maiúsculas destacadas:

“Para aqueles que NÃO são analfabetos funcionais: sabem ler e INTERPRETAR.”

Daí a pessoa me cola uma notinha do Cláudio Humberto  pra interpretar.

Desafio aceito. Então, vamos à interpretação da notinha em questão.

Já começo avisando pra ignorar o autor da dita. Cê vai ver que no final do post isso não vai fazer a mínima diferença (ou vai acabar justificando e identificando o estilo do moço).

O texto em questão diz o seguinte:

QUINTA COLUNA

O Palácio do Planalto tem recebido diariamente dezenas de denúncias de sabotagens de militantes do PT ainda ocupando cargos de confiança em órgãos como Caixa, Dataprev, Funai, INSS, Fonasa etc.

 

Então, tá.

Vamos fazer primeiro a interpretação de texto que uma criança de 12 anos é capaz de fazer.

As palavras que resumem este post são: militantes + PT + sabotagem + cargos de confiança.

Então, temos aqui que os sujeitos são canalhas, sem caráter, sabotadores, destruidores, vândalos etcetcetcetc.

A criança de 12 anos diria que o texto fala de gente sem caráter que está destruindo o país.

A título de comparação, é como se eu pedisse pra criança reescrever a frase “Ivo viu a uva” com sinônimos, e obtivesse como resposta “o garoto observou a fruta”. Tá certinho. É isso mesmo que a escola pede e espera de você.

Vamos jogar feitiço nesse caldeirão?

Prossigamos, então, com a minha comparação. Tomemos a frase “Ivo viu a uva”. Eu pergunto: Ivo é cego?

Se você responder que sim, eu continuo: de onde você tirou essa conclusão? Do verbo ver em “Ivo viu a uva”?

Mas eu não disse que Ivo não é cego, eu disse que Ivo viu a uva. E, se Ivo for cego, eu posso estar mentindo ao dizer que Ivo viu a uva… E aí, como saber se Ivo é cego ou não, e se eu estou ou não mentindo sobre as habilidades visuais de Ivo?

É aí que entra a Análise do Discurso. O último nível no game da interpretação de texto. Um trem que dá uma atenção monstro ao uso e às escolhas das palavras de um texto.

Então, vamos fazer a análise do discurso do texto em questão.

Vou chamar pra ajudar no trabalho um cara muito legal, que vira e mexe eu cito aqui, o holandês Teun van Dijk. Em 2000, ele escreveu um livro intitulado Ideologia e Discurso, que, se você entender inglês, eu recomendo muito que leia pelo menos os capítulos 1, 2 e 5. Vou usar o capítulo 5 pra trabalhar a interpretação da notinha abaixo.

Mas eu tava contando do van Dijk. Ele explica, grosso modo, que o grande lance de você trabalhar ideologicamente um texto é partir da divisão nós X eles (nós somos legais, eles são chatos; nós somos bonitos, eles são feios; nós somos honestos, eles são desonestos etcetcetc.). Desenvolvendo essa divisão, é só trabalhar um texto com as seguintes quatro instruções gerais:

  • Enfatize coisas boas sobre nós
  • Desenfatize coisas ruins sobre nós
  • Enfatize as coisas ruins deles
  • Desenfatize as coisas boas deles

Quem tem meio neurônio a mais já conseguiu enfiar 2678 edições de Veja, mais 345678654 textos de Estadão, Globo e Folha nessas quatro premissas daí de cima. Mas van Dijk vai mais fundo na coisa. O capítulo 5 desse livro que eu linquei aí em cima (começa na página 42) traz uma verdadeira receita de bolo sobre como manipular um texto. A ponto de listar os ingredientes e te deixar à vontade pra experimentar a dose de cada um deles.

Intâo, vamos lá pro texto destacar os ingredientes de van Dijk em míseras 30 palavras?

Traz a pipoca e o guaraná que a coisa vai ficar legal!

QUINTA COLUNA[a escolha desta expressão para o título da notinha tem, como diria o professor Girafales, motivo, razão e circunstância. Dona Wikipedia explica tudinho. Vou nem entrar na questão. Quero me pegar com a estrutura linguística e redacional da coisa!]  

O Palácio do Planalto tem recebido [Paradinha aqui pra analisar o sujeito dessa frase. Palácio do Planalto. Trata-se de um lugar, ponto turístico ou ainda uma construção arquitetônica, o que você quiser. Mas ele não tem muito jeitão de executor de tarefas, né? Aí você vai dizer que trata-se de uma metonímia. Corretíssimo. Resta saber por que a escolha de uma metonímia aqui. Quando dizemos “O estádio aplaudiu o jogador”, temos uma escolha do redator em sintetizar todos os torcedores presentes num todo – no caso, o estádio – que dá a ideia de quantidade, tamanho, proporção. Mas esse Palácio do Planalto não faz isso… quem recebe o que quer que seja no Palácio do Planalto são funcionários do local. Mas por que eles foram deliberadamente ocultados por esta metonímia daqui? Que funcionários são esses? Eles existem mesmo? (Spoilers no parágrafo abaixo.) Voltando ao nosso holandês mais querido, van Dijk aponta aqui dois ingredientes interessantes na construção de um discurso ideológico: a topicalização (estamos falando do Palácio do Planalto, a coisa é quente, é supostamente travestidamente disfarçadamente ah, whatever! informação oficial!) e o texto vago (como explica van Dijk: “um instrumento político e ideológico poderoso é a manipulação da clareza / vaguidão de um texto”, está na página 52)]

diariamente dezenas de denúncias [Temos aqui dois aparentes mensuradores: um de tempo, outro de quantidade/volume. Ambos podem ser substituídos pelo advérbio “muitas”. Mas eles foram deliberadamente escritos nessa frase para quantificar um troço que, se você pensar direitinho, não quantifica nada. Só enche os olhos. Sabe algodão doce na água? Pois é. Igualzinho. Ou, como diz van Dijk, “uma vez que um tópico é selecionado, os usuários de uma língua tem outra opção para a concretização de seu modelo mental – troço bem legal que TVD explica nos capítulos iniciais do livro – é a quantidade de detalhes sobre um evento, que o descreve de forma abstrata e genérica, ou dá detalhes mínimos (pág. 46). Aqui nós temos um evento A PA REN TE MEN TE descrito em detalhes. Mas se detalhes existissem, pormenorizados tintim por tintim eles seriam, né? Diariamente dezenas de denúncias equivale, quantitativamente, a semanalmente centenas de denúncias. Sabe quantas denúncias surgiram? Pois é, nem eu.]

de sabotagens de militantes do PT [Cara, seis palavras que falam mais sobre quem escreveu do que sobre o tema do texto. Defina sabotagem, por favor. Deu tilt, né? Qualquer coisa pode ser sabotagem. Desde eu chamar Michel Temer de cara de mordomo de Agatha Christie até um post “Fora Temer”, ou adulteração de dados governamentais, ou alterar o nome do Wifi da repartição para golpistas de merda. Se temos centenas de sabotagens semanais, o texto poderia ao menos detalhar que sabotagens são essas, né? (Me dá uma pipoquinha, por favor? Obrigada! 😀 ) Mas temos apenas esse genérico generalizado sem especificação que fala muito sem falar nada. E você aí só pensando que sabotagem é um troço ruim, né? Eu tô aqui esperando a explicação pra saber que tipo de troço é uma sabotagem. Tô sentadinha esperando, claro. Outra coisa: “militantes do PT”. Mais uma expressão genérica. Um tio com boné do MST na fila do banco pode ser um militante do PT. A Dama de Vermelho pode ser militante do PT. Tudo vai depender da sua capacidade de imaginação e abstração. Observe que os militantes são apenas do PT, não são do PC do B, tá? O importante é que os militantes sejam do PT. A sabotagem quem pratica é o PT. É isso que você tem que pensar. (Mas isso é George Lakoff, e eu não vou meter Lakoff neste bedelho aqui porque não quero – e pra não deixar o trem quilométrico.)]

ainda ocupando cargos de confiança [aqui eu começo a ficar malvada. Ah, cês me desculpem, mas se ainda tem gente do PT ocupando “cargos de confiança” no governo, a culpa é do governo que não teve competência pra retirá-los todos dos cargos. Inda mais se eles estão praticando sabotagem, cáspita! Além de golpista é incompetente? Paporra!!!] 

em órgãos como Caixa, Dataprev, Funai, INSS, Funasa etc.[nem vou me delongar aqui. Só ler o que já escrevi lá em cima em “diariamente dezenas”. Mais um caso de “nível de descrição / grau de detalhe”, página 46 do van Dijk de 2000. Jornalisticamente falando, se você tem casos de sabotagens em órgãos como os citados acima, ou você conta tudo ou você não tem uma notícia. Um bom editor das antigas diria: “escreve essa merda direito e me dá mais detalhe, ou enfia essa história no rabo!”]

Spoiler do sujeito “Palácio do Planalto”: quem lida com textos jornalísticos sabe que “fontes do Palácio do Planalto” ou “fontes com alto trânsito do Palácio do Planalto” são expressões que, em 90% das vezes, significam “tô inventando esta nota, me deixa.” Lembro de uma vez que “altas fontes do Palácio do Planalto” contaram à reportagem da Folha de SPaulo que a então ministra da Casa Civil Gleisi Hoffman era alta entusiasta de uma CPI do Cachoeira, numa reunião realizada à revelia da então presidenta Dilma, quanto esta foi em viagem oficial aos Estados Unidos. As “altas fontes do Planalto” só se esqueceram de um detalhe: Gleisi Hoffmann havia viajado junto com Dilma pros EUA, não estava no Brasil era estar presente à hipotética reunião. Enfim… Adoro elucubrar identificações de fontes…

Entenderam por que nem precisei falar de Cláudio Humberto? O texto é autoexplicativo, gente…

Mas depois dessa análise toda, só tô pensando numa coisinha aqui: quem é o quinta-coluna em questão? Não ficou claro, né?

*****
Fonte:http://www.objetivandodisponibilizar.com.br/desafio-aceito-quinta-coluna-e-quem-mesmo/

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