O PSDB deve ficar no governo porque seus líderes são valentes apenas com os mais fracos

12.06.2017
Do portal BRASIL247
Por Joaquim de Carvalho 

Conciliábulo

A guerra na Cracolândia e o apoio ao governo corrupto de Michel Temer revelam que o PSDB é um partido valente com os fracos e covarde com os poderosos.

O prefeito João Doria e o governador Geraldo Alckmin – este no triste papel de coadjuvante – deflagraram no dia mais frio do ano a segunda operação cujo único resultado prático é maltratar doentes.

Michel Temer não é, pessoalmente, poderoso, mas ele representa as forças conservadoras que de fato governam o Brasil e fizeram deste país um campeão da desigualdade social.

Já não é segredo para ninguém que o golpe de 2016 foi, em grande medida, financiado por grandes empresários.

Joesley Batista, dono da JBS, pagou o marqueteiro de Temer para fazer a guerrilha na internet.

Foi um movimento orquestrado que, de longe, Vladimir Putin, da Rússia, e Recep Erdogan, da Turquia, detectaram, certamente municiados por serviços de inteligência.

No ensaio que escreveu para a Revista Piauí, o ex-prefeito Fernando Haddad narra o episódio em que Putin e Erdogan telefonam ao ex-presidente Lula para alertá-lo de que a histeria pré-impeachment não era um movimento espontâneo.

Putin entende dos subterrâneos da internet e há indícios de que seus agentes desestabilizaram até uma eleição nos Estados Unidos.

Não é preciso ir longe para constatar que saiu da Fiesp o dinheiro que pagou e alimentou os brucutus que montaram acampamento na Avenida Paulista e agrediram até mulheres.

Onde eles estão agora?

Valente com quem foi colocado nas cordas, o PSDB pagou 45 mil reais para que uma professora na USP fizesse um parecer para justificar impeachment com pedaladas fiscais, as terríveis pedaladas fiscais.

No Senado, já com Dilma afastada e com a farsa do processo de cassação em curso, os líderes tucanos fingiram indignação com as pedaladas, enquanto o presidente do partido, Aécio Neves, comandava o saque ao Erário e o aparelhamento do Estado.

Não conseguiram tudo, mas conseguiram muito.

E o saque ainda não terminou.

Corre diante dos nossos olhos e com o silêncio cúmplice dos ex-batedores de panela.

A exemplo do partido que apoiam, o ex-batedores de panela são valentes com os mais fracos, como se vê agora no caso do adolescente torturado com a inscrição na testa “Eu sou ladrão e vacilão”.

Na pagina Afroguerrilha, que fez uma vaquinha virtual para ajudar na operação para remover a tatuagem, fãs da apresentadora Raquel Sherazade e do suposto humorista Danilo Gentili criticaram a iniciativa.

Um deles escreveu:

— Como pode o Brasil mudar se tem gente defendendo bandido? Queria poder construir um MURO nesse país pra dividir, porque conviver com gente que defende bandido é a maior das derrotas isso sim, tomem vergonha.

Outro disse que faria o mesmo. E anotou: “Que sofra muito”.

E por aí vai.

Agora se sabe que o adolescente vítima da tortura recebe tratamento psiquiátrico, por dependência química, e nem houve tentativa de roubo de bicicleta.

Foi crueldade apenas, um impulso de justiçamento por ouvir dizer que o adolescente roubava.

O Brasil tem jeito.

Mas é preciso levantar o véu da hipocrisia.

E apontar aqueles que se comportam como tigrões com os mais fracos e pombinhos com os tubarões.

Não é à toa que o prefeito João Doria é uma das vozes mais firmes em defesa de Michel Temer.

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Fonte:http://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-psdb-deve-ficar-no-governo-porque-seus-lideres-sa%CC%83o-valentes-apenas-com-os-mais-fracos-por-joaquim-de-carvalho/

O BRASIL FUNCIONA ASSIM…

09.06.2017
Do Twitter de 

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Fonte:https://twitter.com/marie13guevara/status/785482808630341632

KARNAL: ALUNOS DE CLASSE MÉDIA DEVERIAM FICAR DE PÉ UM DIA TODO

07.06.2017
Do portal BRASIL247
Por Leandro Karnal, em seu Facebook

Se nada der certo, se tudo der errado, surgirá o Brasil

Duas escolas do Rio Grande do Sul criaram, em ocasiões diferentes, uma atividade curiosa. Os alunos do terceiro ano do ensino médio se fantasiaram dentro do desafio: e se os meus planos de vestibular e de vida falharem? Desafio dado e surgiram garis, faxineiras, vendedoras, presidiários etc. As fotos circulam pela internet. Qual o problema da atividade?

01) Estabelece de forma clara que trabalhos mecânicos/ braçais são inferiores e podem ser ridicularizados, reforçando nossa tradição escravista;

02) Associa baixa renda e salários pequenos a fracasso pessoal e reforça uma ideia preconceituosa;

03) Não cria o contraditório para estimular o pensamento: dar errado é produzir algo concreto como o gari que trabalha com um produto que ninguém duvida que seja útil (limpeza) ou dar certo é ser alguém que aplica na bolsa? A vendedora da loja ganha, em alguns momentos, mais do que os professores da escola, quem deu certo? Qual seria o trabalho que dá certo e a vida que dá errado? O debate é importante. A escola deve estimular o pensamento e evitar o monolítico, especialmente no campo que desperta o preconceito.

04) Vestir meninas de faxineiras com saias curtas associa trabalho doméstico com disponibilidade de corpos e chance de assédio;

05) Colocar na mesma escala um presidiário e uma vendedora do Boticário mostra que não existe leitura ética nem de valor na concepção dos alunos e promotores do evento. Não ser rico seria dar errado sempre. Curioso é não considerar uma grande categoria nova: o milionário presidiário;

06) Toda atividade pedagógica deve estimular o pensamento crítico e nunca reforçar o sentimento de “Casa Grande”;

07) A melhor atividade para alunos de classe média e classe alta seria fazerem um estágio de uma semana pegando dois ônibus, ficando de pé um dia todo numa lanchonete e ganhando pouco, atendendo clientes arrogantes e, ao fim do dia, com sorte, conseguirem estar em uma escola pública até 22h30 da noite para após tudo isto, voltarem para casa com mais dois ônibus. Tenho certeza de que uma semana nesta rotina mudaria muita coisa na concepção destes alunos sobre o mundo, seus valores e seus preconceitos. O aluno que estava fantasiado de “fracassado” teve sua roupa lavada e passada , sua comida feita, seu transporte garantido e tudo mais porque existem “fracassados”que trabalham para ele.

Queria tranquilizar a tanta gente que se preocupa se os professores de humanas transformaram os alunos em militantes de esquerda. Observem as fotos na internet e durmam tranquilos. Nenhuma mudança social deriva de um projeto escolar que, depois de doze anos de ensino médio e fundamental, consegue ter essa ideia ruim. E se tudo der errado no Brasil? Teremos o Brasil como ele é…

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Fonte:http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/300135/Karnal-Alunos-de-classe-m%C3%A9dia-deveriam-ficar-de-p%C3%A9-um-dia-todo.htm

Disparada de Lula nas pesquisas põe direita em pânico

17.02.2017
Do BLOG DA CIDADANIA
Por Eduardo Guimarães

direita capa

Xico Graziano, o eterno assessor de FHC, entrou em pânico ao ler a 133ª pesquisa CNT-MDA simplesmente porque a CNT é controlada pelo tucanérrimo Clésio Andrade. Ou seja, é um dos institutos de pesquisa mais insuspeitos de ser petistas.

Graziano é uma figura bastante conhecida no meio político por sua verborragia e pelas demonstrações desabridas de vassalagem para com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Nos últimos anos, Graziano têm se metido em várias polêmicas.

Em 2014, seu filho Daniel Graziano, então coordenador do departamento Administrativo, Financeiro e de Recursos Humanos do Instituto Fernando Henrique Cardoso (iFHC), foi convocado a depor em uma delegacia de São Paulo em inquérito sobre informações falsas publicadas na Internet contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do ex-presidente Lula.

http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2014-04-24/filho-de-assessor-de-fhc-e-convocado-para-explicar-boatos-contra-lulinha.html

O caso terminou em acordo, mas o pai de Daniel continuaria dando demonstrações públicas de “lealdade” ao ex-chefe. Porém, só o desespero pode levar esse sujeito a propor a volta de um político que apareceu com 13% dos votos em pesquisa recente do Datafolha sobre quem foi o melhor presidente que o Brasil já teve.

Detalhe, Lula apareceu com 40%.

Ano passado, em novembro, Xico Graziano faz publicar na Folha de São Paulo um artigo propondo, entrelinhas, a pura e simples nomeação de FHC como presidente da República.

Naquele artigo, o ex-chefe de Gabinete da Presidência no governo FHC aproveitou a onda que pregava eleição indireta de um presidente da República substituto caso Michel Temer fosse derrubado pelo TSE, e “sugeriu” que o tucano fosse nomeado presidente pelo Congresso, como se estivéssemos na ditadura militar.

Outro que “pirou” com a disparada de Lula nas pesquisas foi Reinaldo Azevedo, colunista da Folha de São Paulo, conhecido por seu antipetismo amalucado. Apesar de ter afirmado que Lula estaria “morto”, agora está dizendo que ele não só está vivo como pode se reeleger presidente.

Aliás, o jornal onde Reinaldo escreve não está menos desorientado com a disparada de Lula. A pesquisa CNT/MDA foi divulgada na tarde de quarta-feira, mas só foi aparecer na Folha nesta sexta-feira simplesmente porque Reinaldo Azevedo divulgou em sua coluna que comunica ao distinto público que, declarado morto por si, anteriormente, Lula “ressuscitou”.

O que espanta é o espanto dessa gente. Há quase três anos que a mídia, a Lava Jato, os partidos de direita, os movimentos antipetistas e uma militância histérica e canalha praticam toda sorte de atrocidades com o ex-presidente.

Nas últimas semanas, fascistas chegaram a organizar manifestações para comemorar a agonia da falecida esposa de Lula em seu leito de morte e, pelo lado da Justiça, Sergio Moro chegou a intimar dona Marisa Letícia a depor na Lava jato no dia de sua missa de sétimo dia. E ainda estão espantados por a população estar enxergando essa campanha infame contra aquele que pesquisas mostram que o Brasil considera o melhor presidente da história.

A Lava Jato, a mídia, os partidos de direita, os movimentos antipetistas e essa militância doentia que ataca Lula sem piedade, sem parar, a toque de golpes baixos vai acabar elegendo-o presidente no primeiro turno, em 2018.

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Fonte:http://www.blogdacidadania.com.br/2017/02/disparada-de-lula-nas-pesquisas-poe-direita-em-panico/

MÉDICOS-MONSTROS, CONHEÇA-OS: Presidente da Sociedade Brasileira de Bioética, sobre o caso de Dona Marisa: “O que esses jovens médicos fizeram é um absurdo. Terão que aprender da pior forma possível”

17.02.2017
Do blog VI O MUNDO

Regina Parizi Marisa

Regina Parizi: “Ao fazer comentário depreciativo, desonroso, cruel ou desumano sobre um paciente, o médico está, sim, violando a ética médica”. Da esquerda para a direita, em fotos nos cadastros dos CRMs: Richam, Gabriela, Ademar, Pedro Paulo, Michael e Ráyssa

 por Conceição Lemes

24 de janeiro de 2017, cerca de meio dia. Dona Marisa Letícia Lula da Silva da Silva, 66 anos, esposa do ex-presidente Lula, chega ao Hospital Assunção, em São Bernardo do Campo (SBC), com pico de hipertensão arterial e forte dor de cabeça.

Submetida a avaliação clínica e exames, a tomografia diagnostica acidente vascular cerebral (AVC), conhecido popularmente como derrame cerebral.

É do tipo hemorrágico (vasos sanguíneos do cérebro se rompem). E subtipo subaracnóideo (hemorragia ocorre entre o cérebro e a aracnoide, uma das membras da meninge). É o mais raro e mais grave.

Dona Marisa é transferida para São Paulo.

24 de janeiro de 2017, 15h30. Dona Marisa dá entrada na emergência do Hospital Sírio-Libanês.

A essa altura, imagens de sua tomografia já estão sendo criminosamente vazadas do Hospital Assunção, da Rede D’Or São Luiz.

Nas horas seguintes, um grupo de médicos daria sequência ao crime iniciado com o vazamento das imagens, como revelou reportagem de Thiago Herdy, em O Globo:

A médica reumatologista, Gabriela Munhoz, de 31 anos, enviou mensagens a um grupo de Whatsapp de antigos colegas de faculdade, confirmando que dona Marisa estava no pronto-socorro [do Sírio-Libanês, onde trabalhava até então] com diagnóstico de AVC hemorrágico de nível 4 na escala Fisher — considerado um dos mais graves — prestes a ser levada para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
(…)

No dia de sua internação, um médico que atua fora do Sírio-Libanês foi o primeiro a enviar informações sobre o diagnóstico de dona Marisa no grupo “MED IX”. Pedro Paulo de Souza Filho postou imagens de uma tomografia atribuída a dona Marisa Letícia, acompanhada de detalhes que foram confirmados, em seguida, por Gabriela.

Os dados foram compartilhados por Pedro Paulo a partir de um outro grupo de médicos, intitulado “PS Engenho 3”, e atribuídos ao cardiologista Ademar Poltronieri Filho.

Em postagem publicada no mesmo grupo, um colega de Gabriela, o médico residente em urologia Michael Hennich, brincou quando ela disse que dona Marisa não tinha sido levada, ainda, para a UTI: “Ainda bem!”. Gabriela respondeu com risadas.

(…)

Outro médico do grupo, o neurocirurgião Richam Faissal Ellakkis, também comentou o quadro de dona Marisa:

“Esses fdp vão embolizar ainda por cima”, escreveu, em referência ao procedimento de provocar o fechamento de um vaso sanguíneo para diminuir o fluxo de sangue em determinado local. “Tem que romper no procedimento. Daí já abre pupila. E o capeta abraça ela”, escreveu Ellakkis em redes sociais nos últimos dias.

24 de janeiro de 2017, entre 21h e 22h. De Goiânia, em nota no instagram do Diário do Poder,  a médica Ráyssa Monteiro Cognette posta este comentário: “#forcaavc”

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Atentem aos prints ao lado. Ráyssa identifica-se como Dra, talvez para impressionar ou exibir poder a seus 543 seguidores — muitos são leigos — no instagram.

A questão: Como pode uma doutora, cuja missão é salvar vidas, sugerir numa rede social que deseja o pior a uma pessoa lutando pela vida e que não lhe fez qualquer mal?

Ráyssa segue no Facebook o médico e senador Ronaldo Caiado (DEM-GO).

No sábado retrasado, 4 de fevereiro, dia do sepultamento de Dona Marisa, ela compartilhou  mensagem de Caiado criticando Lula no velório.

3 de fevereiro de 2017, 18h57. Dona Marisa Letícia Lula da Silva falece.

ALGUNS EXIGEM DOS CONSELHOS O QUE NEGARAM À DONA MARISA

O Conselho Federal de Medicina (CFM) e os conselhos regionais (CRMs) têm em seus portais um serviço de busca de médicos, aberto ao público em geral.

Disponibiliza cadastro básico: em geral, nome, CRM (número de registro no Conselho Regional de Medicina), especialidade, situação em relação à entidade, e-mail e endereço. A busca pode ser feita por nome ou CRM.

Há médicos que disponibilizam todos os dados solicitados.

Outros, apenas nome, acompanhado de foto.

Pesquisei os cadastros dos seis médicos citados.

Curiosamente, Richam El Hossain Ellakkis (o que sugeriu a morte de Dona Marisa), Pedro Paulo de Sousa Filho (postou imagens de uma tomografia com detalhes sobre o diagnóstico) e Ademar Poltronieri Filho (a partir dele, Pedro Paulo teria obtido os dados) proíbem expressamente a divulgação de e-mail e endereço.

Gabriela Araújo Munhoz libera apenas o e-mail.

Michael Christian Ramos Hennich é de Curitiba. Devido à formatação do portal do Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR), não há e-mail nem endereço do médico.

Já Ráyssa Monteiro Cognette não tem endereço, e-mail, telefone e especialidade cadastrados no Conselho Regional de Medicina de Goiás (Cremego); apenas, nome, foto e CRM.

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médicos 3 aOutro detalhe que chama a atenção é o fato de serem muito jovens.

Pelo número de CRM é possível saber em que ano passaram a exercer a medicina.

Com exceção de Ademar Poltronieri Filho, que pelo número de CRM deve estar na faixa dos 40 anos, os demais têm ao redor dos 31, 32 anos.

O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) abriu duas sindicâncias sobre o caso.

Uma, para apurar o vazamento das imagens da tomografia no hospital de São Bernardo do Campo.

Outra, para averiguar a conduta dos médicos que divulgaram o diagnóstico e/ou fizeram comentários cruéis sobre a situação de Dona Marisa.

“O que esses jovens médicos fizeram é um absurdo”, afirma a médica e professora Regina Parizi, em entrevista exclusiva ao Viomundo.

“Eu tenho conversado com muitos colegas e alunos”, conta. “Independentemente de preferências partidárias, grande parte está revoltada.”

Além de ter sido péssimo para a imagem do Sírio,  eles vão ficar marcados”, lamenta. “Infelizmente, vão ter que aprender da pior forma possível.”

Regina Parizi é uma das grandes autoridades em Bioética no Brasil.

Desde 2013, preside a Sociedade Brasileira de Bioética. Está no segundo mandato.

É professora de Bioética na Residência Médica do Hospital do Servidor Público do Estado de São Paulo.

De 1995 a 1999, foi vice-presidente do CFM; de 1999 a 2003, conselheira.

Presidiu três vezes o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp): de 1995 a 1997, 1999 a 2001 e 2001 a 2003.

Em 1995, a sua primeira medida ao assumir a presidência do Conselho foi determinar a abertura de processos contra os médicos que atuaram nos porões da ditadura militar, colaborando com os torturadores.

Segue a íntegra da nossa entrevista.

Viomundo – Com exceção da médica de Goiás, os demais se manifestaram numa comunidade fechada de profissionais da categoria. Isso poderia isentá-los de responsabilidade pela quebra de sigilo?

Regina Parizi – Não, não. Pelo seguinte: não se trata de um grupo técnico, mas de divulgação indevida em um grupo de turma de formatura.

Viomundo – Explique melhor.

Regina Parizi — Uma coisa é você se manifestar em um grupo técnico, que se reúne, para discutir um caso específico. Isso ocorre no mundo inteiro, inclusive aqui. São reuniões técnicas, marcadas, sem nominar pacientes, têm um protocolo. Adotam-se todos os cuidados para não vazar informações, preservando o sigilo do paciente.O fato de o grupo desses médicos ser fechado não minimiza o que fizeram.

Viomundo – O Cremesp vai considerar isso na sindicância que abriu?

Regina Parizi – Imagino que sim.

Viomundo – Como repercutiu  no meio médico?

Regina Parizi – Muito mal. Eu tenho conversado com muitos colegas e alunos [da Residência Médica do Hospital do Servidor Público do Estado de São Paulo]. Independentemente de suas preferências partidárias, grande parte está revoltada.

Viomundo – Isso já aconteceu antes?

Regina Parizi — O caso da Dona Marisa não é primeiro. Mas, sinceramente, estamos assustados com essa geração mais nova. Falam determinadas coisas sobre e para pacientes que a gente não via antes. No caso desses jovens médicos, além de ter sido péssimo para a imagem do Sírio, eles vão ficar marcados. Infelizmente, terão que aprender da pior forma possível.

Viomundo – O fato de serem muito jovens me chamou a atenção.

Regina Parizi – Eu ainda dou aula de Bioética na Residência Médica do Hospital do Servidor. Um dos primeiros pontos que abordo é a questão da confidencialidade. Eu sempre digo: Hipócrates [considerado, o Pai da Medicina], há 24 séculos [viveu de 460 a.C-370 a.C], já falava que a confidencialidade é fundamental na relação médico-paciente.

Aliás, a medicina ganhou credibilidade, principalmente por conta da confidencialidade. Por isso, a sociedade confia as suas dificuldades, os seus problemas, os seus corpos, inclusive para pesquisas pós-morte.

O sigilo do médico é tão importante que é protegido por lei. Os médicos têm direito constitucional ao sigilo profissional perante o juiz. Ele só pode ser aberto por liminar e situações especialísssímas, por exemplo, quando há risco para terceiros.

Viomundo – Então, ao quebrar o sigilo, o médico viola o Juramento de Hipócrates, o Código de Ética e o direito de manter-se calado perante o juiz?

Regina Parizi – Sim, os três. O sigilo é um dos 25 princípios fundamentais do Código de Ética Médica. O que trata expressamente do tema é o XI:

O médico guardará sigilo a respeito das informações de que detenha conhecimento no desempenho de suas funções, com exceção dos casos previstos em lei.

O capítulo IX do Código de Ética Médica é dedicado só ao sigilo. O artigo 73 diz textualmente:

É vedado ao médico revelar fato de que tenha conhecimento em virtude do exercício de sua profissão, salvo por motivo justo, dever legal ou consentimento, por escrito, do paciente.

Além disso, esse profissional rompe um direito constitucional de todos os médicos, que é o de se manter calado perante o juiz.

Viomundo – Então eles teriam agido também contra a própria categoria?

Regina Parizi – Lamentavelmente, sim. Veja bem. Na noite do dia em que Dona Marisa se internou, um colega me contatou para denunciar: “Olha que absurdo, a tomografia da Dona Marisa já está na internet!”

Por isso, aqui vai um alerta. Se o médico pensa em desrespeitar a privacidade do paciente por si só, é bom nunca esquecer que essa atitude implica também na violação direito constitucional ao sigilo.

O direito ao sigilo não é uma conquista individual. Ele só se tornou possível graças às batalhas e aos compromissos de todas as gerações anteriores.

Viomundo – Quando eu comecei a fazer Jornalismo na área de saúde, os médicos quase nunca davam entrevista. Foi o dr. Gabriel Oselka na presidência do Cremesp (1978-1984) que começou a mudar essa visão, mostrando que era importante falar para a sociedade. As coisas foram mudando, chegamos ao oposto, à exposição excessiva. No caso da Dona Marisa, à extrapolação. Como explicar isso?

Regina Parizi – É uma questão geracional. E aí há vários aspectos. Um deles: a exposição absurda combinada ao crescimento do preconceito e do conservadorismo, problema que nós temos na sociedade de um modo geral, mas que na área médica pode ficar muito grave, como mostra o caso da Dona Marisa.

Viomundo – A senhora quer dizer exposição excessiva nas redes sociais?

Regina Parizi – Isso! É um fator que pesa. Hoje em dia tudo é muito exposto nas redes sociais. A vida desses jovens médicos também. Estão tão acostumados a expor colegas, a contar o que fazem de manhã à noite, por exemplo, que talvez achem que tudo bem expor as outras pessoas também. É uma relação diferente da que nós tivemos.

Viomundo – Não haveria também problema de formação?

Regina Parizi – Com certeza, sim. A formação está muito ruim. Obviamente, tem que haver boa formação técnica. Mas não basta, tem que ter também formação humanitária. As matérias de Humanas são extremamente importantes para a área de medicina.

Atualmente, nos cursos de medicina tem a disciplina de Bioética. Espero que o governo atual não corte. Afinal, quando vão economizar, tendem a cortar as matérias relacionadas às ciências humanas, como se fossem supérfluas. E não são.

Aliás, o governo colocou como opcionais no Ensino Médio as matérias de ciências humanas. Isso é muito ruim, vai refletir negativamente mais à frente. Quem viver, verá.

Viomundo – Faltou formação bioética a esses médicos?

Regina Parizi – Acho que sim, e essa é uma questão central nesse caso.

A Bioética nasceu na década de 1970 a partir da discussão sobre os experimentos nazistas na Segunda Guerra e o mal que um profissional pode causar aos seres humanos se não tiver formação ética adequada.

Por isso, temos de que de estar sempre atentos. A formação bioética é fundamental nos cursos de medicina. E o sigilo profissional, um dos pontos principais.

Viomundo – Processos por quebra do sigilo são frequentes?

Regina Parizi – Há 22 anos participo do CFM e Cremesp – atualmente integro a câmaras de Bioética das duas instituições. Vi processos por erro médico e por vários outros motivos , mas por sigilo eram muito raros. Agora é um problema, como estamos acompanhando no caso de Dona Marisa.

Hoje em dia o sigilo é um dos graves problemas que temos e as instituições hospitalares precisam tomar cuidado. Isso veio com a internet, que preconiza a exposição.

Viomundo – Sigilo é cuidado que todo médico tem de ter com todo paciente, seja famoso ou não.

Regina Parizi — Com certeza. No caso de paciente famoso, às vezes o colega é cercado pela imprensa e fala demais. É preciso tomar cuidado nessas horas para não abrir informação que não pode ser aberta. No caso de Dona Marisa, ela foi vítima da quebra do sigilo, de preconceito e da situação política que nós estamos vivendo no Brasil.

Viomundo – No caso de Dona Marisa, há os médicos que vazaram e compartilharam exames e informações de saúde pessoais e sigilosas dela. Tem aqueles que debocharam, fizeram comentários agressivos, cruéis e desumanos, torcendo para que ela morresse. Além do preconceito explícito, eles infringem alguma regra ética?

Regina Parizi – Sim. Um dos princípios do Código de Ética Médica é:

O médico guardará absoluto respeito pelo ser humano e atuará sempre em seu benefício. Jamais utilizará seus conhecimentos para causar sofrimento físico ou moral, para o extermínio do ser humano ou para permitir e acobertar tentativa contra sua dignidade e integridade.

O artigo 23 diz:

é vedado ao médico tratar o ser humano sem civilidade ou consideração, desrespeitar sua dignidade.

Portanto, ao fazer comentário depreciativo, desonroso, cruel ou desumano sobre um paciente, o médico está, sim, violando a ética médica.

Viomundo – O preconceito e conservadorismo crescentes no Brasil contribuíram para isso?

Regina Parizi – É claro que sim. Infelizmente essa onda forte de preconceito e conservadorismo não é exclusividade do Brasil nem do meio médico. É generalizada. Isso assombra, pois, nós, médicos, fomos formados e treinados, para atender quem seja quem for. A nossa obrigação é sustentar a vida das pessoas, não é julgar.

Por isso, os médicos têm de ter uma formação democrática, para exercer a profissão. O médico tem de aplicar o seu conhecimento da mesma forma, seja o paciente branco, negro, indígena, de esquerda ou de direita. Muitas vezes num pronto-socorro você atende criminoso. É nossa obrigação.

Viomundo – Mas a categoria dos médicos é, no geral, conservadora.

Regina Parizi – De fato, é conservadora, porque vem de uma classe média, classe média alta. Aliás, essa nova geração de médicos está vindo de uma classe média alta, muito alta.

Que família pode pagar R$ 8 mil reais por mês de curso de medicina para o filho e ainda custear moradia e alimentação por vários anos?

Isso se reflete na sala de aula, quando você faz uma discussão, por exemplo, de que a responsabilidade pela assistência à saúde é uma questão mais coletiva.

Eles acham que não, por conta da formação familiar, de valores morais e éticos. Eles acham que é apenas uma questão individual. E ponto. Todas as questões coletivas estão fora de moda.

O que aconteceu com esses jovens médicos envolvidos no caso de Dona Marisa é uma pequena demonstração do que realmente está acontecendo.

O médico pode até se recusar atender determinado paciente. É um direito previsto no Código de Ética Médica.

Só que ele tem a obrigação de indicar um colega para fazer o atendimento. Agora, se ele for o único profissional em determinada cidade, por exemplo, ele é obrigado a atender, sim, sob pena de violar o Código de Ética.

Viomundo – Os vazamentos ocorreram no Hospital Assunção, que integra a maior rede hospitais privados do País, Rede D’or São Luiz, e no Sírio-Libanês. Como fica a situação deles?

Regina Parizi – Primeiro, são corresponsáveis, pois o hospital é o guardião das informações do paciente. Segundo, é péssimo para as instituições a repercussão que o caso está tendo.

Diante do que aconteceu certamente tem gente falando “não vou mais ao hospital x, porque ele vaza informação do paciente”

A sociedade tem que exercer mesmo este papel.

A sociedade tem limites para entender uma discussão técnica, mas sobre sigilo médico, não.

A sociedade sabe que o que aconteceu é imperdoável e não tem que facilitar, mesmo. A nossa obrigação e a do hospital é zelar pela privacidade do paciente.

Viomundo – Um pouco atrás a senhora disse que quebra de sigilo é hoje um dos graves problemas e que isso veio com a internet. E, agora?

Regina Parizi – A questão da internet é um desafio para nós. O pessoal mais jovem – incluem-se aí os médicos– acha que está protegido no celular, num grupo de rede social. Não está. É isso que eles têm que entender, pra gente começar a mudar a situação.

Eu sempre falo para os meus alunos: não há instrumento que lhes protejam; eles só te expõem; cuidado com aquilo que faz ou conversa com o colega no celular e nas redes sociais, abertas ou fechadas.

O mesmo digo, agora, para os leitores do Viomundo. Nós e a sociedade em geral temos de lutar juntos para preservar o sigilo das informações médicas, um direito dos pacientes e um dos bens mais preciosos da medicina.
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PS de Conceição Lemes: 

O Conselho Federal de Medicina  (CFM) é responsável pela fiscalização do exercício ético da medicina. A Associação Médica Brasileira (AMB), pela defesa e zelo da qualidade do exercício profissional, que envolve técnica e ética, conhecimento científico e humanístico.

Porém, nos últimos anos, AMB e CFM:

* Fizeram campanha pela derrubada da presidenta Dilma Rousseff, apoiaram o golpe parlamentar-midiático-jurídico em curso no Brasil e estimularam o ódio contra petistas, o ex-presidente Lula, Dona Marisa e toda a família.

* Defenderam posições repreensíveis no episódio do Mais Médicos. Lembremos que o presidente do CRM de Minas orientou os médicos mineiros a negarem atendimento a pacientes que tivessem sido atendidos por médicos cubanos.

Diante disso, como essas entidades podem agora repreender a conduta desses jovens médicos se elas próprias contribuíram para disseminar ódio e preconceito no meio médico contra petistas e do qual Dona Marisa foi vítima?

Sinceramente, espero que CFM e AMB reflitam sobre esse lamentável episódio. Do contrário, todos nós perderemos ainda mais.

 Leia também:

Beatriz Cerqueira: O governo golpista precisa de escola que impeça de pensar; o Escola sem partido visa isso

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Fonte:http://www.viomundo.com.br/denuncias/presidente-da-sociedade-brasileira-de-bioetica-sobre-o-caso-dona-marisa-o-que-esses-jovens-medicos-fizeram-e-um-absurdo-terao-de-aprender-da-pior-forma-possivel.html

Negra, pobre e da rede pública passa em primeiro lugar em medicina da USP

06.02.2017
Do portal BRASIL247

negra

“A casa-grande surta quando a senzala vira médica” é a frase que abre a conta do Facebook de Bruna Sena, primeira colocada em medicina na USP de Ribeirão Preto; ela defende sistema de cotas e diz que quer “atender pessoas de baixa renda, que precisam de ajuda, que precisam de alguém para dar a mão e de saúde de qualidade”

Da Revista Fórum Saímos de uma semana triste e especialmente desoladora para a medicina, quando alguns médicos sujaram profissão tão nobre tripudiando da doença de Dona Marisa chegando até a sugerir a sua morte. Mas hoje voltamos a festejar o futuro: “A casa-grande surta quando a senzala vira médica”. Esta é a frase que abre a conta do Facebook de Bruna Sena, primeira colocada em medicina na USP de Ribeirão Preto, a vaga mais concorrida da Fuvest – 2017, o vestibular mais concorrido do país.

Negra, pobre, tímida, estudante de escola pública, Bruna será a primeira da família a interromper o ciclo de ausência de formação superior em suas gerações. Fez em grande estilo, passando em uma das melhores faculdades médicas do país.

O apelo da mãe, entre a felicidade e o espanto, é ainda mais dramático: “Por favor, coloque no jornal que tenho medo dos racistas. Ela vai ser o 1% negro e pobre no meio dos brancos e ricos da faculdade”. Abandonada pelo marido, Dinália Sena, 50, sustenta a menina Bruna desde que ela tinha 9 anos, com um salário de R$ 1.400 como operadora de caixa de supermercado.

Bruna acredita que será bem recebida pelos colegas e tem na ponta da língua a defesa de sua raça, de cotas sociais e da necessidade de mais oportunidades para os negros no Brasil. “Claro que a ascensão social do negro incomoda, assim como incomoda quando o filho da empregada melhora de vida, passa na Fuvest. Não posso dizer que já sofri racismo, até porque não tinha maturidade e conhecimento para reconhecer atitudes racistas”, diz a caloura.

“Alguns se esquecem do passado, que foram anos de escravidão e sofrimento para os negros. Os programas de cota são paliativos, mas precisam existir. Não há como concorrer de igual para igual quando não se tem oportunidades de vida iguais.”

GEORGE ORWELL

Para enfrentar a concorrência de 75,58 candidatos do vaga, Bruna fez o básico: se preparou muito, ao longo de toda sua vida escolar. “Ela só tirava notas 9 ou 10. Uma vez, tirou um 7 e fui até a escola para saber o que tinha acontecido. Não dava para acreditar. Falei com o diretor e ele descobriu que tinham trocado a nota dela com um menino chamado Bruno”, orgulha-se a mãe.

George Orwell, autor do clássico “A Revolução dos Bichos”, fábula que conta a insurreição dos animais de uma granja contra seus donos, está entre os favoritos da garota, que também gosta de romance e comédia e é fã da série americana “Grey’s Anatomy”, um drama médico.

No último ano do ensino médio, que cursou pela manhã na escola estadual Santos Dumont, conseguiu uma bolsa de estudos em um cursinho popular tocado por estudantes da própria USP, para onde ia à noite. “Minha escola era boa, mas, infelizmente, tinha todas as dificuldades da educação pública, que não prepara o aluno para o vestibular. Falta conteúdo, preparo de alguns professores. Sem o cursinho, não iria conseguir.”

Segundo Bruna, que mora em um conjunto habitacional na periferia de Ribeirão Preto, vários de seus colegas de escolas nem “nem sabem que a USP é pública e que existe vestibular para passar”.

Com ajuda financeira de amigos e parentes, Bruna fazia kumon de matemática, mas o dinheiro não deu para seguir com o curso de inglês. “Tudo na nossa vida foi com muita luta, desde que ela nasceu, prematura de sete meses, e teve de ficar internada por 28 dias. Não tenho nenhum luxo, não faço minhas unhas, não arrumo meu cabelo. Tudo é para a educação dela”, declara a mãe.

Ainda segundo Dinália, “alguns conhecidos ajudaram. Uma amiga minha sempre dava livros para ela. Uma vez, essa amiga colocou R$ 10 dentro de um livro para comprarmos comida e escreveu: ‘Bruna, vence a vida, não deixe que ela te vença, estude'”.

FUTURO

A opção pela medicina aconteceu há cerca de um ano, por influência de professores do cursinho popular que frequentou o CPM, ligado à própria Faculdade de Medicina da USP-Ribeirão. “Claro que não sei ainda qual especialidade pretendo seguir, mas sei que quero atender pessoas de baixa renda, que precisam de ajuda, que precisam de alguém para dar a mão e de saúde de qualidade”, declara.

Engajada na defesa de causas sociais como o feminismo, o movimento negro e a liberdade de gênero, a adolescente orgulha-se do cabelo crespo e de sua origem, mas é restrita nas palavras sobre o pai, que não paga pensão e não a vê há anos. “Minha mãe ralou muito para que eu tivesse esse resultado e preciso honrar isso. Sou grata também a minha escola, ao cursinho. Do meu pai, nunca entendi o desprezo, me incomoda um pouco, mas agora é hora de comemorar e ser feliz.”

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Fonte:http://www.brasil247.com/pt/247/sp247/278815/Negra-pobre-e-da-rede-pública-passa-em-primeiro-lugar-em-medicina-da-USP.htm

ÓDIO A MARISA LETÍCIA EXPÕE FALHAS E ELITISMO NAS FACULDADES DE MEDICINA

04.02.2017
Do portal BRASIL247
Por Cida de Oliveira, da Rede Brasil Atual

Professor de Cardiologia na Escola Paulista de Medicina, vinculada à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e dirigente do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp), Bráulio Luna Filho entende que os desvios de conduta dos médicos envolvidos no episódio de vazamento de informações trocadas entre grupos do WhatsApp, um deles sugerindo procedimento para matar Marisa Letícia Lula da Silva, refletem falhas no acesso aos cursos de Medicina e do currículo; e não descarta que o elitismo do corpo discente das escolas médicas brasileiras expliquem, em parte, episódios como esse

Professor de Cardiologia na Escola Paulista de Medicina, vinculada à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e dirigente do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp), Bráulio Luna Filho entende que os desvios de conduta dos médicos envolvidos no episódio de vazamento de informações trocadas entre grupos do WhatsApp, um deles sugerindo procedimento para matar Marisa Letícia Lula da Silva, refletem falhas no acesso aos cursos de Medicina e do currículo. E não descarta que o elitismo do corpo discente das escolas médicas brasileiras expliquem, em parte, episódios como esse.

A médica reumatologista Gabriela Munhoz, de 31 anos, que espalhou pelo aplicativo que a ex-primeira-dama estava internada no Hospital Sírio-Libanês após um derrame hemorrágico e que seria levada para a UTI, foi demitida pelo hospital. E o neurocirurgião Richam Faissal El Hossain Ellakkis – que sugeriu o procedimento aos seus colegas de grupo no whatsapp – teve sua demissão decidida pela Unimed de São Roque. A Unimed teria divulgado nota alegando que o profissional não pertence a seu quadro, mas atua como terceirizado em um hospital ligado à operadora.

Investigados em sindicância instaurada pelo Cremesp, ambos podem sofrer processo administrativo ou mesmo perder o registro junto ao órgão, ficando assim impedidos de exercer a Medicina.

O Código de Ética Médica veda ao médico “permitir o manuseio e o conhecimento dos prontuários por pessoas não obrigadas ao sigilo profissional quando sob sua responsabilidade”. Não permite também “liberar cópias do prontuário sob sua guarda, salvo quando autorizado, por escrito, pelo paciente, para atender ordem judicial ou para a sua própria defesa”, esta última em situação de sindicância ou processo ético-profissional.

“Não é todo mundo que pode ser médico. Não basta ter condições de passar no processo seletivo de universidade pública ou de se manter num curso particular, que é caro. É preciso humanismo, entender a importância do papel de um médico, o que é mais importante do que o domínio de tecnologias”, disse Luna Filho.

O integrante do conselho, que assinala falar em seu nome, e não do órgão, defende que as escolas médicas brasileiras façam modificações no sistema de ingresso – nos quais o poder econômico não seja o mais determinante, e sim a vocação – e também na estrutura curricular. Com isso, a formação ética seria estendida para o longo do curso, e não concentrada em disciplinas específicas, num determinado estágio da graduação.

Sem citar nomes dos envolvidos e tampouco fazendo prognósticos quanto ao desfecho das investigações no Cremesp, o conselheiro disse que a polarização acentuada em momentos políticos marcantes, como períodos eleitorais, não é diferente da observada nas faculdades de Medicina, onde estão os filhos da elite.

“E essa polarização talvez estimule as pessoas a serem ainda mais audaciosas, usando os recursos tecnológicos para se manifestar. Mas não podemos tolerar isso na Medicina”, disse, mencionando os princípios médicos, que devem respeitar e preservar os aspectos físico, emocional e moral, transcendendo tabus, crenças e preconceitos, em nome da fidelidade ao compromisso de tratar e cuidar de todos, sem distinção com relação a raça, credo ou situação socioeconômica.

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Fonte:http://www.brasil247.com/pt/247/brasil/278592/%C3%93dio-a-Marisa-Let%C3%ADcia-exp%C3%B5e-falhas-e-elitismo-nas-faculdades-de-Medicina.htm