KARNAL: ALUNOS DE CLASSE MÉDIA DEVERIAM FICAR DE PÉ UM DIA TODO

07.06.2017
Do portal BRASIL247
Por Leandro Karnal, em seu Facebook

Se nada der certo, se tudo der errado, surgirá o Brasil

Duas escolas do Rio Grande do Sul criaram, em ocasiões diferentes, uma atividade curiosa. Os alunos do terceiro ano do ensino médio se fantasiaram dentro do desafio: e se os meus planos de vestibular e de vida falharem? Desafio dado e surgiram garis, faxineiras, vendedoras, presidiários etc. As fotos circulam pela internet. Qual o problema da atividade?

01) Estabelece de forma clara que trabalhos mecânicos/ braçais são inferiores e podem ser ridicularizados, reforçando nossa tradição escravista;

02) Associa baixa renda e salários pequenos a fracasso pessoal e reforça uma ideia preconceituosa;

03) Não cria o contraditório para estimular o pensamento: dar errado é produzir algo concreto como o gari que trabalha com um produto que ninguém duvida que seja útil (limpeza) ou dar certo é ser alguém que aplica na bolsa? A vendedora da loja ganha, em alguns momentos, mais do que os professores da escola, quem deu certo? Qual seria o trabalho que dá certo e a vida que dá errado? O debate é importante. A escola deve estimular o pensamento e evitar o monolítico, especialmente no campo que desperta o preconceito.

04) Vestir meninas de faxineiras com saias curtas associa trabalho doméstico com disponibilidade de corpos e chance de assédio;

05) Colocar na mesma escala um presidiário e uma vendedora do Boticário mostra que não existe leitura ética nem de valor na concepção dos alunos e promotores do evento. Não ser rico seria dar errado sempre. Curioso é não considerar uma grande categoria nova: o milionário presidiário;

06) Toda atividade pedagógica deve estimular o pensamento crítico e nunca reforçar o sentimento de “Casa Grande”;

07) A melhor atividade para alunos de classe média e classe alta seria fazerem um estágio de uma semana pegando dois ônibus, ficando de pé um dia todo numa lanchonete e ganhando pouco, atendendo clientes arrogantes e, ao fim do dia, com sorte, conseguirem estar em uma escola pública até 22h30 da noite para após tudo isto, voltarem para casa com mais dois ônibus. Tenho certeza de que uma semana nesta rotina mudaria muita coisa na concepção destes alunos sobre o mundo, seus valores e seus preconceitos. O aluno que estava fantasiado de “fracassado” teve sua roupa lavada e passada , sua comida feita, seu transporte garantido e tudo mais porque existem “fracassados”que trabalham para ele.

Queria tranquilizar a tanta gente que se preocupa se os professores de humanas transformaram os alunos em militantes de esquerda. Observem as fotos na internet e durmam tranquilos. Nenhuma mudança social deriva de um projeto escolar que, depois de doze anos de ensino médio e fundamental, consegue ter essa ideia ruim. E se tudo der errado no Brasil? Teremos o Brasil como ele é…

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Fonte:http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/300135/Karnal-Alunos-de-classe-m%C3%A9dia-deveriam-ficar-de-p%C3%A9-um-dia-todo.htm

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CLASSE MÉDIA FOI ENGANADA PELA MÍDIA QUE FEZ “TRABALHO SUJO” DO GOLPE

20.01.2017
Do portal BRASL247

Quem tem medo da Filosofia e Sociologia no ensino médio?

18.12.2016
Do blog VOYAGER,14.12.16
Por Matheus

Por que o reacionarismo brasileiro tem medo de Filosofia e Sociologia?

Vejamos um exemplo…

A bandeira brasileira tem um lema: “ordem e progresso“. O lema era inspirado na filosofia formulada por Auguste Comte e batizada por ele de “positivismo“. A “ordem” do lema era a preservação de hierarquias tradicionais, o que num país que mal abolira a escravidão era algo trágico, e o “progresso” o econômico e tecnológico. A mensagem implícita é: o Brasil deve crescer, mas no benefício dos privilegiados tradicionais, descendentes dos senhores e traficantes de escravos convertidos em capitalistas e tecnocratas.

O filósofo francês fundador do positivismo, Auguste Comte (Montpellier, 19/01/1798 – Paris, 5/09/1857).

Comte também inventou o termo Sociologia, que acabou se institucionalizando nas universidades, e concebeu uma linhagem de teoria social que nunca deveria questionar a “ordem” instituída. Ou seja, não deveria compreender os processos sociais como uma totalidade, apenas realizar análises fragmentárias de fatos sociais parciais. Várias vezes reciclado, o positivismo ajudou a formar gerações e gerações de intelectuais servis, que muitas vezes se acreditavam pessoas progressistas, mas na prática contribuíam para legitimar situações de injustiça social.

Um exemplo de doutrina positivista é a “teoria da modernização”, que numa versão brasileira afirma que nosso maior mal é a nossa cultura, e que a solução para “progredir” dentro da “ordem” seria a imposição da supremacia do mercado nas relações sociais.

Este é só um exemplo. Sem filosofia ou sociologia os alunos não conheceriam a origem e o significado do lema “ordem e progresso” na bandeira brasileira, da mesma forma que sem história crítica continuariam achando que os quadrados verde e amarelo da bandeira representariam a exuberância da natureza e da riqueza do Brasil, e não a dinastia portuguesa que continuou governando o país por 77 anos após a independência.

E a supremacia de uma oligarquia fanática por seus próprios privilégios, como é a brasileira, exige que todo questionamento seja prevenido e reprimido.
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Fonte:http://voyager1.net/sociedade/quem-tem-medo-da-filosofia-e-sociologia-no-ensino-medio/

Ódio à classe média, “pobrismo” e empreendedorismo

12.12.2016
Do portal da Revista Carta Capital
Por David Carneiro e Roberto Dutra* 

A esquerda precisa se reconciliar com a massa que empreende, ou quer empreender, nas periferias brasileiras. Não fazer isso é esnobar a luta cotidiana de muitos

Empreendedorismo
Debate sobre startups no Parque Tecnológico da Bahia, em 2015: a esquerda não deve demonizar o empreendedorismo

Em seu clássico A economia do socialismo possível, Alec Nove relembra-nos um conto de Vasili Grossman no qual o escritor ucraniano coloca as seguintes palavras na boca de um soldado soviético: “desde pequeno, sonho em abrir uma lojinha. Assim as pessoas poderiam entrar e comprar. Ao lado dela, haveria uma lanchonete, onde os clientes pudessem comer carne assada e tomar um bom drink se assim quisessem. Tudo isso por um bom preço…se eu falasse isso em voz alta, no entanto, seria mandado direto para a Sibéria. E mesmo assim, eu lhe pergunto: que mal estaria fazendo a essas pessoas?”

Hoje os males de uma economia planificada e as irracionalidades e efeitos políticos colaterais que lhes são correlatos são de amplo conhecimento e já não angariam simpatias, ao menos expressas, na maior parte da esquerda e dos setores progressistas.

Não obstante, o ódio ou a desconfiança em relação ao empreendedorismo persistem e são reatualizados pelo imaginário coletivista e pela herança teológica que a esquerda decidiu chamar de sua.

Ao mesmo tempo em que se orgulha de ter implementado políticas, em parte, de fato responsáveis pela emergência de umanova classe média”, que nós chamamos aqui de “batalhadores”, a esquerda manteve, no nível de sua estética e representações, uma imensa má vontade em relação aos valores dessa classe emergente, fechando as portas para uma aproximação programática e para a própria inteligibilidade de seu discurso.

O primeiro elemento desse fechamento e talvez o mais tosco consiste no conclamado ódio nutrido pela entidade abstrata que se convencionou chamar de “classe média”. Não há uma única pesquisa que mostre que a classe média brasileira possua posições políticas mais retrógradas que “os pobres” e nem que haja, nos estratos de renda média, uma única posição política consolidada. Apesar, é claro, de um avanço conservador, nos últimos anos, poder ser verificado em todas as classes e estratos sociais.  

Apontar esse fato não significa negar a existência de posições retrógradas em um nível alarmante, nem negar a vocação colonial das elites brasileiras, mas sublinhar os riscos que a reificação de uma imagem de classe traz ao cultivo de um imaginário progressista.

Pode-se dizer que um dos erros contido nesse “ódio” é que a condição de classe média, compreendida como um mínimo de conforto material e segurança familiar, é aspiração quase que universal e legítima nos dias atuais, à qual muitos almejam alcançar e da qual muitos lutam para não sair.

Ao cultivar esse ódio irracional, a esquerda parece esnobar boa parte das lutas cotidianas das pessoas comuns do País, seja para fechar as contas no final do mês, seja para garantir o sustento dos filhos. Quando não, para fugir ou remediar a dolorosa realidade atual do desemprego.   

O reverso do ódio à classe média tem se materializado em outro erro, que chamamos de cultivo da estética do “pobrismo”. Uma vez indisponível a figura do operário modelo, o pobre, o flagelado ou, de modo mais idílico, os povos tradicionais, transformaram-se em horizonte estético da esquerda, operando um fechamento para os horizontes de vida possíveis e um afastamento de aspirações legítimas das maiorias desorganizadas do País.

Se por um lado sonhar com um eletrodoméstico soa quase como uma traição de classe, um atestado de ser “manipulado” ou mesmo exemplo do “erro” da estratégia de inclusão pelo consumo, o pobre só “prestaria” para esquerda quando assumisse com orgulho sua condição de destituído, isto é, sem os vícios típicos dos “pequenos burgueses” e seus sonhos de ascensão material.

Isso, é lógico, quando muitos dos intelectuais de esquerda já têm acesso aos mesmos bens desejados pelos batalhadores.

Quando se cruzam no mundo produtivo, o ódio à classe média e o pobrismo transformam-se em negacionismo das experiências de empreendedorismo dos batalhadores. O sonho com o negócio, a busca de autoajuda e mesmo redes cooperativas ligadas à religião são reduzidos a “dispositivos funcionais de controle” ou captura pela “ideologia capitalista”.

Batalhadores são lembrados a todo o tempo que “não são um deles” ou que são simplesmente “massas de manobra” de empresários e pastores. 

É preciso entender que se, como mostram algumas pesquisas, mais de 40% dos moradores de favelas sonham em ter seu próprio negócio, não o fazem somente por vocação (ou manipulação), mas também por necessidade. Nos dias que correm, o “empreender” é tanto a possibilidade que resta aberta para uma vida melhor quanto uma necessidade imediata de prover a si mesmo e a sua própria família diante da crise do assalariamento.

Disso não se segue, é claro, que os setores progressistas devam comprar totalmente o “discurso do empreendedorismo” ou a própria linguagem dos batalhadores tal como se apresenta. Uma das faces mais perversas da “ideologia do empreendedorismo” consiste na tentativa de culpar os pobres pela própria pobreza e ilidir os fatores estruturais das desigualdades e privações nas sociedades atuais. Não se pode, contudo, confundir o empreendedorismo com sua ideologia.

Em vez disso, o ideário da esquerda deveria compreender que há no mundo produtivo um processo aberto e em disputa, que exige de nós abertura a múltiplas fontes teóricas. Isto não significa capitular ao espírito do tempo, mas sim manter-se à altura da complexidade social que caracteriza o mundo atual. É preciso ver, por exemplo, na crise do assalariamento e o consequente “escape” pelo empreendedorismo, não uma capitulação, mas uma nova oportunidade de emancipação.

Isso nos leva, por consequência, à necessidade de cultivar alternativas não-estatistas, que poderíamos chamar de um “liberalismo popular” ou “experimentalismo democrático”. Abraçar essas alternativas não significa abandonar a aspiração emancipatória do socialismo dos séculos XIX e XX, mas revisitar seus próprios fundamentos.

Não esqueçamos que autores como Marx sempre tiveram o valor da autonomia individual como parte central de seus ideários políticos. O comunismo previa a conquista, por meio da luta social, daquilo que a sociedade de então não podia oferecer: a liberação do potencial de produtor autônomo de cada indivíduo.

O erro de Marx, é claro, foi não ter antevisto as consequências anti-democráticas da planificação, mas qualquer projeto que deseje revisitar os fundamentos de Marx sem incorrer em seus erros deve assumir que o caminho para uma sociedade de produtores autônomos precisa estar baseado em algum tipo de organização econômica que valorize a iniciativa e a autonomia individuais.

Um projeto desse tipo passa na maioria das vezes por fora do Estado, mas exige também outro modelo de Estado para que possa florescer.

Um novo projeto de esquerda deve combinar a energia autônoma dos pequenos negócios, cooperativas e empreendimentos com um novo desenho das instituições, que vá além da distribuição marginal da renda e do discurso da equidade que até agora marcaram, para o bem ou para o mal, a experiência da esquerda no poder.

Se por um lado um programa desse tipo baseia-se na democratização do acesso dos pequenos e médios empreendimentos ao crédito e a oportunidades de capacitação e escala que lhes são negados pelo neoliberalismo, por outro radicaliza o projeto da esquerda, recolocando a questão estrutural da reorganização da economia e das oportunidades no centro do debate político.

Ao invés de ignorar ou esnobar essa força que surge nas periferias brasileiras, a esquerda deveria valorizar a linguagem política que prioriza o sonho da autonomia individual, coletivamente construído e sustentado nas famílias e igrejas periféricas. Trata-se de terreno muito mais fértil do que aquele orientado por ideias coletivistas vagamente professadas, restritas a corporações e movimentos tradicionais.

Isso porque permite tanto que os setores progressistas mobilizem uma nova base para bandeiras históricas, como a democratização do crédito produtivo e a reorganização do sistema financeiro, mas também a abertura a novas formas de construção de prosperidade individual e coletiva.

A aliança entre e a esquerda e os batalhadores está longe de ser automática. O discurso destes hoje, não sem motivos, mistura uma profunda desconfiança na política com a crença de que o Estado deve prover infinitas demandas. Se a esquerda conseguirá se encontrar programaticamente com a energia dos batalhadores, é uma questão aberta.

Algo, no entanto, não parece estar em aberto. Ao manter o discurso do ódio à classe média, da estética do pobrismo e da nostalgia mal confessada da planificação, caminhamos para uma fragorosa derrota histórica. Contra a redução estética, defendemos que a esquerda precisa fazer sua opção preferencial pela riqueza. Não para cultivar a cultura do descarte, mas para promover o reencontro com as aspirações e possibilidades de prosperidade colocadas pelo nosso tempo. 

*David Carneiro é doutorando em Filosofia do Direito pela UERJ. Foi pesquisador visitante da Harvard Law School e consultor legislativo. Roberto Dutra, doutor em sociologia pela Universidade Humboldt, é professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense

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Fonte:http://www.cartacapital.com.br/blogs/o-brasil-no-mundo/odio-a-classe-media-201cpobrismo201d-e-empreendedorismo