Com ajuda de jornalistas, delegados criaram versão do dossiê contra Lava Jato

16.11.2016
Do blog MARCELO AULER REPÓRTER
Por Marcelo Auler

Na contestação à defesado jornalO Estado de S. Paulo, que processa pela publicação das postagens do Face Book, a delegada Erica deixa claro que o IPL 737 foi aberto para apurar em que condições ocorreu aquela publicação. Depois surgiu a história do dossiê dos dissidentes.

Aos poucos os mistérios se revelam, os fatos se clareiam e surgem estranhas notícias como a de jornalistas passando informações internas dos órgãos onde trabalham, para delegados da Operação Lava Jato. Informações que, por sinal, ou não se confirmaram ou foram cabalmente desmentidas pelas suas chefias. São fatos que surgem aos poucos, juntando documentos que só agora chegam ao conhecimento publico. Mas, ainda faltam algumas decisões para que toda a verdade apareça. Quem irá tomá-las?

Na contestação que apresentou no 9º Juízo Cível de Curitiba, onde processa o jornal O Estado de S. Paulo, conforme noticiamos em – Estadão esconde do leitor que delegada Erika tenta lhe censurar, a delegada de Polícia Federal, Erika Mialik Marena demonstra que toda a história sobre a existência de um dossiê feito por “dissidentes” da Superintendência Regional do Departamento de Polícia Federal do Paraná (SR/DPF/PR) surgiu após a publicação, naquele jornal, em novembro de 2014, das postagens com comentários políticos dos delegados das Operação Lava Jato em suas páginas do Face Book. Teria sido retaliação?

Foi, a partir da publicação desta reportagem, que delegados começaram a buscar informações que permitissem afirmar que um dossiê contrário às investigações de corrupção estaria sendo elaborado pelos chamados “dissidentes” da Superintendência. Com base em informes assinados pelo delegado Igor Romário de Paulo, responsável pela Delegacia Regional de Combate ao Crime Organizado (DRCOR) – portanto, superior a todos da equipe da Força Tarefa na Polícia Federal, – terminou-se por instaurar o inquérito 737, que já está relatado, mas aguarda um posicionamento do Ministério Público Federal (MPF).

No Inquérito, presidido a princípio pelo delegado federal de Bauru Mario Fanton, mas posteriormente conduzido pela delegada Tânia Fogaça, da Coordenadoria de Assuntos Internos (Coain) da Corregedoria Geral do DPF (Coger/DPF), o delegado Paulo Renato Herrera foi indiciado pelo crime de “corrupção passiva imaterial”. Depois de não conseguir encontrar qualquer dossiê e nem provar, mesmo com quebras de sigilo bancário e fiscal dos investigados, qualquer enriquecimento ilícito ou movimentação financeira duvidosa – e falava-se que o dossiê custaria milhões de dólares – a delegada apelou para a “corrupção imaterial”. Os demais acusados – o ex-agente do DPF Rodrigo Gnazzo, e os advogados Marden Maués e Augusto de Arruda Botelho – também indiciados por terem “contribuído” com o crime.

A delegada Erika quer censurar as postagens no site do Estadão sobre as mensagens de Face Book que ela e seus colegas fizeram na época das eleições de 2014. Reprodução

Informações duvidosas – O material do Estadão – Delegados da Lava Jato exaltam Aécio e atacam PT na rede – de autoria da jornalista Julia Duailibi, foi publicado em 13 de novembro de 2014, pouco após o resultado da eleição. A contagem dos votos surpreendeu a oposição (entenda-se Aécio Neves) e seus seguidores (o que inclui os delegados da Lava Jato), ao dar a vitória a Dilma Rousseff com 54 milhões de votos.

É esta reportagem que a delegada Erika quer censurar no site do jornal, esquecendo que ela já foi republicada em várias outras páginas da internet. Por ela, pede ainda uma indenização de R$ 70 mil, embora em momento algum desminta o que a jornalista noticiou.

A partir desta publicação, que por tudo que se apurou chegou às mãos de Júlia pelo ex-ministro Marcio Thomaz Bastos (falecido em sete dias depois de o material sair no jornal), os delegados federais da Operação da Lava Jato começaram a correr atrás de quem repassou as páginas do Face Book a Bastos. Foi quando surgiu a versão de que existiam dissidentes dentro da Superintendência do DPF no Paraná que estariam preparando dossiê a ser vendido, o que hoje se sabe que foi pura invencionice.

Jornalistas informaram delegados – A versão do dossiê, porém, só passou a constar do papel muito tempo depois, através de dois ofícios – escritos, teoricamente, na mesma data, 29 de dezembro de 2014 – encaminhados pelo Delegado Igor Romário de Paulo, ao superintendente regional, Rosalvo Ferreira Franco com cópia para a delegada Erika. O superintendente, como consta do documento, só tomou conhecimento em março de 2015. (veja íntegra de um dos documentos dele abaixo):

Jornalistas informaram sobre dossiê não encontrado

O curioso no relato do delegado Igor é saber que de onde saíram “as informações” sobre o possível dossiê, jamais comprovado, cuja existência, ressalve-se, só passou a ser divulgada após a reportagem de Júlia Duailibi:

foram colhidas com advogados que atuam no caso, jornalistas que acompanham as investigações e com integrantes do próprio jornal responsável pela publicação da primeira matéria“.

As informações dele, inclusive, mostram que não conhece em nada o funcionamento de uma redação de jornal. Se o conhecesse saberia que os grandes órgãos de comunicação podem ser acusado de tudo, menos de negociarem venderem espaço no jornal para matérias em suas páginas. Sabe-se de matérias que deixam de ser dadas por questões ideológicas ou para não ferirem interesses de grandes anunciantes. Mas, na grande imprensa, jamais ocorreu de matéria na páginas de notícia pela qual o interessado paga ao jornal. Este tipo de informação até hoje sai registrada como informe publicitário. O delegado Igor, desconhecendo este detalhe importante, no documento que assinou fala de compra de notícias, como se os jornais grandes precisassem disso:

AUGUSTO DE ARRUDA BOTELHO então teria procurado o jornal O Estado de São Paulo e pago pela publicação da matéria veiculada no dia 13/11/2014” (sic)

Ele não cita os jornalistas dos quais teria recebido informações internas do jornal. Mas, obviamente deduz-se que se trata de alguém do Estadão (“com integrantes do próprio jornal responsável pela publicação da primeira matéria”), assim como, possivelmente da Folha de S. Paulo. Isto, pelo menos, é o que se deduz do depoimento prestado no mesmo inquérito pelo delegado Marcio Adriano Anselmo. Em pelo menos um caso, o que envolve a Folha, a informação do delegado foi oficialmente desmentido pela direção do jornal a este Blog. Abaixo reproduzimos o depoimento do delegado, no qual marcamos estas afirmações:

Folha de S.Paulo desmentiu informações de jornalistas repassada ao DPF Marcio Adriano 

Como se verifica no depoimento Marcio Adriano afirma:

“Que também tomou conhecimento que Augusto teria buscado publicar a referida matéria junto ao jornal Folha de São Paulo, sem sucesso”.

Procurada pelo Blog, em novembro de 2015, a direção do jornal, em um e-mail assinado pelo seu editor executivo, Sérgio Dávila, mas que ele fez questão de frisar que falava também em nome do Diretor Editorial, Otávio Frias Filho, negou o fato. Garantiu que se a matéria chegasse e fosse confirmada, ela seria publicada,. Afinal, no e-mail, ele reconhece o furo dado pela então blogueira do jornal concorrente, Julia Duailibi. De qualquer forma, pelos depoimentos e ofícios dos delegados, fica a suspeita de um relação entre eles e jornalistas que pode muito bem explicar os vazamentos que muitos tentam negar saírem do DPF. Mas que jamais foram apurados a sério.

O desmentido da Folha, no email de Sérgio Dávila que depois acrescentou que o próprio Otávio Frias Filho aprovara a explicação.

A falta de precisão nas informações, informes e depoimentos dos delegados da Lava Jato, como demonstram os casos já citados, foi além. Márcio Adriano acuou seu colega, o delegado Paulo Renato, de vender informações para advogados, com informações de “fórmulas mágicas” para a anulação da operação e outras situações semelhantes, “inclusive oferecendo informações sigilosas”.

Isto, como ficou demonstrado no próprio relatório da delegada Tânia, que concluiu o IPL 737, por nós foi noticiado em Quem com ferro fere… Força Tarefa da Lava Jato pode tornar-se alvo de delação premiada, não se confirmou em momento algum. Na verdade, Paulo Renato, depois de procurar seus superiores, inclusive em Brasília, sem encontrar respaldo, tentou fazer chegar ao então ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, irregularidades que sabia que ocorriam, como de resto, muitos dos policiais da superintendência. Entre elas, a situação do grampo na cela de Youssef, que uma sindicância interna, presidida pelo delegado Maurício Moscardi Grillo, concluíra que não existiu. Fato posteriormente desmentido pelas investigações de Mario Fanton. A preocupação dele, portanto, pode ser vista muito mais como evitar a anulação da operação – diante de ilegalidades – do que de tentar melar. Foi isto que o fez tentar chegar a Thomaz Bastos.

A existência de irregularidades se conclui, inclusive, nos relatórios de Fanton os quais, curiosamente, não foram anexados aos autos do IPL 737. Talvez seja mais um indício de que este inquérito pode sim ter sido uma retaliação às postagens do Face Book que a repórter Júlia Duailibi fez, mostrando uma tendência partidária dos delegados. Mas, as contradições desta investigação, serão motivo de uma nova postagem no Blog.

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Fonte:http://marceloauler.com.br/com-ajuda-de-jornalistas-delegados-criaram-versao-do-dossie-contra-lava-jato/#sthash.ZJloW0SJ.dpuf

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