O PSDB deve ficar no governo porque seus líderes são valentes apenas com os mais fracos

12.06.2017
Do portal BRASIL247
Por Joaquim de Carvalho 

Conciliábulo

A guerra na Cracolândia e o apoio ao governo corrupto de Michel Temer revelam que o PSDB é um partido valente com os fracos e covarde com os poderosos.

O prefeito João Doria e o governador Geraldo Alckmin – este no triste papel de coadjuvante – deflagraram no dia mais frio do ano a segunda operação cujo único resultado prático é maltratar doentes.

Michel Temer não é, pessoalmente, poderoso, mas ele representa as forças conservadoras que de fato governam o Brasil e fizeram deste país um campeão da desigualdade social.

Já não é segredo para ninguém que o golpe de 2016 foi, em grande medida, financiado por grandes empresários.

Joesley Batista, dono da JBS, pagou o marqueteiro de Temer para fazer a guerrilha na internet.

Foi um movimento orquestrado que, de longe, Vladimir Putin, da Rússia, e Recep Erdogan, da Turquia, detectaram, certamente municiados por serviços de inteligência.

No ensaio que escreveu para a Revista Piauí, o ex-prefeito Fernando Haddad narra o episódio em que Putin e Erdogan telefonam ao ex-presidente Lula para alertá-lo de que a histeria pré-impeachment não era um movimento espontâneo.

Putin entende dos subterrâneos da internet e há indícios de que seus agentes desestabilizaram até uma eleição nos Estados Unidos.

Não é preciso ir longe para constatar que saiu da Fiesp o dinheiro que pagou e alimentou os brucutus que montaram acampamento na Avenida Paulista e agrediram até mulheres.

Onde eles estão agora?

Valente com quem foi colocado nas cordas, o PSDB pagou 45 mil reais para que uma professora na USP fizesse um parecer para justificar impeachment com pedaladas fiscais, as terríveis pedaladas fiscais.

No Senado, já com Dilma afastada e com a farsa do processo de cassação em curso, os líderes tucanos fingiram indignação com as pedaladas, enquanto o presidente do partido, Aécio Neves, comandava o saque ao Erário e o aparelhamento do Estado.

Não conseguiram tudo, mas conseguiram muito.

E o saque ainda não terminou.

Corre diante dos nossos olhos e com o silêncio cúmplice dos ex-batedores de panela.

A exemplo do partido que apoiam, o ex-batedores de panela são valentes com os mais fracos, como se vê agora no caso do adolescente torturado com a inscrição na testa “Eu sou ladrão e vacilão”.

Na pagina Afroguerrilha, que fez uma vaquinha virtual para ajudar na operação para remover a tatuagem, fãs da apresentadora Raquel Sherazade e do suposto humorista Danilo Gentili criticaram a iniciativa.

Um deles escreveu:

— Como pode o Brasil mudar se tem gente defendendo bandido? Queria poder construir um MURO nesse país pra dividir, porque conviver com gente que defende bandido é a maior das derrotas isso sim, tomem vergonha.

Outro disse que faria o mesmo. E anotou: “Que sofra muito”.

E por aí vai.

Agora se sabe que o adolescente vítima da tortura recebe tratamento psiquiátrico, por dependência química, e nem houve tentativa de roubo de bicicleta.

Foi crueldade apenas, um impulso de justiçamento por ouvir dizer que o adolescente roubava.

O Brasil tem jeito.

Mas é preciso levantar o véu da hipocrisia.

E apontar aqueles que se comportam como tigrões com os mais fracos e pombinhos com os tubarões.

Não é à toa que o prefeito João Doria é uma das vozes mais firmes em defesa de Michel Temer.

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Fonte:http://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-psdb-deve-ficar-no-governo-porque-seus-lideres-sa%CC%83o-valentes-apenas-com-os-mais-fracos-por-joaquim-de-carvalho/

DOENÇA DO “PATO LOUCO”

10.06.2017
Do Twitter de 

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Fonte:https://twitter.com/demo_fantasma/status/873638857010446336/photo/1

KARNAL: ALUNOS DE CLASSE MÉDIA DEVERIAM FICAR DE PÉ UM DIA TODO

07.06.2017
Do portal BRASIL247
Por Leandro Karnal, em seu Facebook

Se nada der certo, se tudo der errado, surgirá o Brasil

Duas escolas do Rio Grande do Sul criaram, em ocasiões diferentes, uma atividade curiosa. Os alunos do terceiro ano do ensino médio se fantasiaram dentro do desafio: e se os meus planos de vestibular e de vida falharem? Desafio dado e surgiram garis, faxineiras, vendedoras, presidiários etc. As fotos circulam pela internet. Qual o problema da atividade?

01) Estabelece de forma clara que trabalhos mecânicos/ braçais são inferiores e podem ser ridicularizados, reforçando nossa tradição escravista;

02) Associa baixa renda e salários pequenos a fracasso pessoal e reforça uma ideia preconceituosa;

03) Não cria o contraditório para estimular o pensamento: dar errado é produzir algo concreto como o gari que trabalha com um produto que ninguém duvida que seja útil (limpeza) ou dar certo é ser alguém que aplica na bolsa? A vendedora da loja ganha, em alguns momentos, mais do que os professores da escola, quem deu certo? Qual seria o trabalho que dá certo e a vida que dá errado? O debate é importante. A escola deve estimular o pensamento e evitar o monolítico, especialmente no campo que desperta o preconceito.

04) Vestir meninas de faxineiras com saias curtas associa trabalho doméstico com disponibilidade de corpos e chance de assédio;

05) Colocar na mesma escala um presidiário e uma vendedora do Boticário mostra que não existe leitura ética nem de valor na concepção dos alunos e promotores do evento. Não ser rico seria dar errado sempre. Curioso é não considerar uma grande categoria nova: o milionário presidiário;

06) Toda atividade pedagógica deve estimular o pensamento crítico e nunca reforçar o sentimento de “Casa Grande”;

07) A melhor atividade para alunos de classe média e classe alta seria fazerem um estágio de uma semana pegando dois ônibus, ficando de pé um dia todo numa lanchonete e ganhando pouco, atendendo clientes arrogantes e, ao fim do dia, com sorte, conseguirem estar em uma escola pública até 22h30 da noite para após tudo isto, voltarem para casa com mais dois ônibus. Tenho certeza de que uma semana nesta rotina mudaria muita coisa na concepção destes alunos sobre o mundo, seus valores e seus preconceitos. O aluno que estava fantasiado de “fracassado” teve sua roupa lavada e passada , sua comida feita, seu transporte garantido e tudo mais porque existem “fracassados”que trabalham para ele.

Queria tranquilizar a tanta gente que se preocupa se os professores de humanas transformaram os alunos em militantes de esquerda. Observem as fotos na internet e durmam tranquilos. Nenhuma mudança social deriva de um projeto escolar que, depois de doze anos de ensino médio e fundamental, consegue ter essa ideia ruim. E se tudo der errado no Brasil? Teremos o Brasil como ele é…

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Fonte:http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/300135/Karnal-Alunos-de-classe-m%C3%A9dia-deveriam-ficar-de-p%C3%A9-um-dia-todo.htm

Chacina como política

10.01.201
Do portal BRASIL247, 09.01.17
Por Marcelo Zero

O Secretário da Juventude do Golpe, que defendeu mais chacinas, foi demitido porque falou em público o que os golpistas e seus apoiadores pensam em privado.

Afinal, este é um governo que, além de ter suprimido a democracia e a soberania popular, instituiu um Estado de Exceção dedicado à repressão feroz aos movimentos populares e estudantis que se opõem ao golpe. Conduzido pelo Ministro da Justiça, o mesmo que negou auxílio ao governo de Roraima, esse Estado de Exceção já propôs até mesmo a tortura como método para desalojar os estudantes que ocupavam as escolas.

Nesse contexto, os direitos humanos só existem realmente para os “homens de bem”, a minoria branca, afluente e bem-nascida da Casa Grande. Os habitantes da nossa “Bélgica”, que bateram panelas e foram às ruas com o apoio das polícias e da mídia.

Para os demais, afrodescendentes, índios, pobres em geral e pessoas que se opõem ao golpe, resta o braço duro da repressão, as bombas, os cassetetes, a tropa de choque e a cavalaria. Na Senzala, a nossa “Índia”, a questão social voltou a ser caso de polícia. Afinal, para a Casa Grande, não há “santos” na Senzala. Todos são culpados de alguma coisa. Quando menos, de serem pobres.

O golpe liberou e legitimou o fascismo que estava latente em nossa sociedade excludente e desigual. Nossas torturantes tradições foram retomadas plenamente. Transformamos-nos no país do ódio.

Nesse contexto, desejar morte de presos e clamar por mais chacinas é natural. Apenas deve-se ter o cuidado de não dizê-lo de forma aberta, pois quem não tem votos deve se apoiar na aparência de legalidade e civilidade. Como no caso do impeachment sem crime.

Mas a verdade é que o golpe e seus apoiadores desejam chacinas. Mais do que isso, o golpe veio para promover chacinas. Talvez não as chacinas literais de presos, mas as chacinas sutis e impessoais das políticas que matam.

O golpe, ao massacrar os direitos sociais, previdenciários e trabalhistas, promoverá a morte entre os mais pobres. O degola dos direitos implicará a degola de pessoas.

Não é exagero; não é especulação. É o que dizem pesquisas sérias feitas em países desenvolvidos.

Em 2013, foi lançado o livro The Body Economic: Why Austerity Kills. Escrita por David Stuckler, especialista em saúde pública com doutorado em Cambridge, e Sanjay Basu, médico com mestrado e doutorado em Yale, a obra mostra os efeitos desastrosos que as políticas neoliberais e de austeridade causam na saúde pública, aumentando sobremaneira as mortes na população mais vulnerável.

Nos EUA, a crise e o desemprego, combinados com a ausência de políticas compensatórias adequadas, fizeram com que mais de 5 milhões de pessoas perdessem seus seguros de saúde. Calcula-se que, hoje, cerca de 50.000 americanos morram precocemente a cada ano por causa da ausência de assistência médica.

Além disso, Stuckler e Basu demonstram que as políticas de austeridade aumentaram em 10.000 ao ano o número de suicídios nos EUA e na Europa. Os casos de depressão aumentaram em mais de 1 milhão ao ano. Na Grécia, as infecções por HIV subiram 200%, devidos aos cortes nas políticas de prevenção, e o número de suicídios aumentou em 60%.

Em alguns países, como a Rússia, essas políticas de austeridade e neoliberais tiveram efeitos muito mais desastrosos. Com efeito, nesse país, o colapso do comunismo e a implementação de um capitalismo selvagem provocou, além da ruína econômica, o que ficou conhecido como uma “crise de mortalidade pós-comunista”, de vastas proporções.

A expectativa de vida dos homens russos caiu de 64 anos, em 1991, para apenas 57, em 1994. Foi maior redução de expectativa de vida registrada em tempos de paz em todo o mundo. O mais desconcertante, contudo, foi que esse aumento de mortes se deu, em 90%, entre homens jovens, entre 20 e 39 anos. A causa? O aumento exponencial do desemprego, que passou de praticamente zero para 25%, fez subir, de forma proporcional, o alcoolismo mórbido, os suicídios, os homicídios e as mortes precoces por problemas cardíacos.

Stuckler afirma que as políticas de austeridade podem ser medidas pelo número de mortes que causam. No caso da Rússia, a “Terapia de Choque Econômico” proposta pelos economistas neoliberais, que desestruturou e privatizou vastos setores da economia soviética, provocou o “desaparecimento” precoce de 10 milhões de homes russos, segundo Stuckler e Basu. Uma grande chacina. Um genocídio.

Em contraste, Stuckler e Basu argumentam, com base em extensas estatísticas oficiais, que os programas de estímulo econômico salvam vidas. O exemplo mais importante e elucidativo se refere ao New Deal, que os EUA adotaram na Grande Depressão da década de 1930.

Para cada US$ 100 per capita investidos naqueles programas de estímulo econômico, a mortalidade infantil se reduziu em 18 por mil e o número de mortes por pneumonia se reduziu, em números absolutos, em 18 para cada grupos de 100 mil habitantes. Assim, para cada grupo de 1mil crianças nascidas, o New Deal salvou 18 da morte, e, para cada grupo de 100 mil habitantes, o New Deal salvou 18 da morte por pneumonia.

Além disso, o New Deal livrou muita gente do suicídio. Em 1927, a taxa de suicídios nos EUA era de 16 por 100 mil habitantes. Com a Grande Depressão, ela subiu rapidamente para 22 por 100 mil habitantes, em 1933. No entanto, logo após a introdução do New Deal, a taxa de suicídios começou a cair rapidamente e, em 1936, já havia se reduzido para 16 mortes por 100 mil habitantes.

Esses são apenas alguns números. Na verdade, o New Deal salvou a economia americana e, sobretudo, salvou milhões de vidas americanas da fome, da doença e do suicídio. É por isso que Stuckler e Basu afirmam que o New Deal, embora não tenha sido uma política de saúde, foi “o maior programa de saúde pública implantado nos EUA”.

Da mesma forma, o Bolsa Família, tão atacado pelos “homens de bem’, reduziu em 19,4% a mortalidade entre crianças de até 5 anos, nos municípios onde tinha alta cobertura, sendo que esta redução foi ainda maior, se consideradas as mortalidades especificas por algumas causas, como desnutrição (65%) e diarreia (53%).

É por isso também que Rudolph Virchow, fundador da medicina social, afirmava que “a “política nada mais é que medicina em grande escala””. Se correta, a política salva muitas vidas. Se equivocada, como a política de austeridade, ela pode matar milhares ou milhões.

Não há dúvida de que a redução dos investimentos em saúde que será invariavelmente ocasionada pela PEC 241/55, combinada com a extinção de direitos previdenciários e trabalhistas, o aumento do desemprego, a redução do salário mínimo, a redução de programas sociais e outras medidas socialmente perversas do golpe vão aumentar muito as taxas de morbidade no Brasil.

Num país como o nosso, ainda muito desigual e com um Estado de Bem Estar incipiente, apesar dos grandes avanços promovidos na era do PT, as consequências da austeridade irracional e contraproducente imposta pelo golpe por 20 anos serão terríveis. Muita gente morrerá. Perto disso, as chacinas de presos, embora chocantes, são somente pequenas amostras do que vem por aí. A política reacionária do golpe chacinará nossa população mais vulnerável.

É possível que Temer e os demais “homens de bem” do governo golpista não tenham consciência disso. Pode ser que estejam bem-intencionados. Porém, como a própria propaganda do governo reconhece, “gente boa também mata”.

E como!

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Fonte:http://www.brasil247.com/pt/colunistas/marcelozero/274373/Chacina-como-pol%C3%ADtica.htm

Onde estão os batedores de panelas?

14.12.2016
Do blog PRAGMATISMO POLITICO

A verdade é que o silêncio das panelas é ensurdecedor. É um recado cruel, de tão claro: “Nós, batedores de panelas, não damos a mínima para o Brasil”

onde estão batedores panela corrupção elite direita

Nathali Macedo, DCM

Procuro escrever um texto irônico e bem-humorado sobre a aprovação da PEC 55, mas tem coisas das quais a gente não consegue rir nem de nervosismo.

Queria dizer “bem feito, pobre de direita” para o meu primo Bolsominion – que pensa que é rico só porque tem piscina – mas eu estaria dizendo “bem feito” também para a minha sobrinha de quatro anos, que só viverá – talvez, quem sabe – um país melhor aos vinte e quatro, e aos meus pais, que talvez morram sem terem conseguido se aposentar. Estaria dizendo “bem feito” para mim mesma e para todos os meus irmãos de pátria, absolutamente todos, coxas, petralhas, anarcos e isentões.

A verdade é que o silêncio das panelas é ensurdecedor. É um recado cruel, de tão claro:

“Nós, batedores de panelas, não damos a mínima para o Brasil. Nós, assim como aqueles que nos representam, somos maus perdedores e, portanto, não nos importa o que aconteça daqui pra frente, desde que sigamos com esse sentimento de vitória, desde que deixem a salvo nossa ilusão de que nós tiramos a presidenta desgraçada do lugar onde a democracia a colocou. Nós preferimos nosso covarde silêncio ou essa insistência patética na ideia de que a PEC 55 salvará o Brasil do estrago feito pelo partido que inventou a corrupção – fora petê!!! – (sim, ainda há em insista, Silas Malafaia que o diga) – à confissão impensável de que fomos massa de manobra para um golpe.

Assim como não suportamos perder, nós não suportamos a ideia de que fomos enganados – e para fugir dessa ideia, somos capazes até mesmo de proteger àqueles que nos enganaram.”

A segunda verdade é que não há nada que combine mais com a direita antipetista do que esse silêncio covarde. Foi por covardia que eles foram às ruas. Foi pelo medo que têm e sempre tiveram do dia em que o povo se levantasse pelos seus direitos, do dia em que a favela descesse pra cobrar os atrasados (chamam isso de ataque comunista), pelo medo – com o qual talvez nunca consigam lidar – de perderem seus privilégios.

Nós, petralhas, comunas, maconheiros, abortistas, boicotadores da pátria, desordeiros, vândalos – como bons defensores da democracia, não queremos colocar palavras na boca da direita, como fui obrigada a fazer neste texto.

Nós, queridos coxas, queremos ouvi-los.

Qual a sensação de ver o país se afundando no lodo do ilegítimo que vocês (pensam que) puseram na presidência? Por que suas panelas importadas estão em silêncio diante destes vinte anos de “gastos” congelados e nem uma palavra sobre a taxação das grandes fortunas? O que, afinal, vocês têm a dizer sobre a lista da Odebrecht?

Nós queremos desesperadamente – talvez num ato de fraqueza – acreditar que vocês fizeram o que fizeram por ignorância. Com todo esse silêncio, fica parecendo que foi por puro ódio de classe.

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Fonte:http://www.pragmatismopolitico.com.br/2016/12/onde-batedores-panelas.html

Ódio à classe média, “pobrismo” e empreendedorismo

12.12.2016
Do portal da Revista Carta Capital
Por David Carneiro e Roberto Dutra* 

A esquerda precisa se reconciliar com a massa que empreende, ou quer empreender, nas periferias brasileiras. Não fazer isso é esnobar a luta cotidiana de muitos

Empreendedorismo
Debate sobre startups no Parque Tecnológico da Bahia, em 2015: a esquerda não deve demonizar o empreendedorismo

Em seu clássico A economia do socialismo possível, Alec Nove relembra-nos um conto de Vasili Grossman no qual o escritor ucraniano coloca as seguintes palavras na boca de um soldado soviético: “desde pequeno, sonho em abrir uma lojinha. Assim as pessoas poderiam entrar e comprar. Ao lado dela, haveria uma lanchonete, onde os clientes pudessem comer carne assada e tomar um bom drink se assim quisessem. Tudo isso por um bom preço…se eu falasse isso em voz alta, no entanto, seria mandado direto para a Sibéria. E mesmo assim, eu lhe pergunto: que mal estaria fazendo a essas pessoas?”

Hoje os males de uma economia planificada e as irracionalidades e efeitos políticos colaterais que lhes são correlatos são de amplo conhecimento e já não angariam simpatias, ao menos expressas, na maior parte da esquerda e dos setores progressistas.

Não obstante, o ódio ou a desconfiança em relação ao empreendedorismo persistem e são reatualizados pelo imaginário coletivista e pela herança teológica que a esquerda decidiu chamar de sua.

Ao mesmo tempo em que se orgulha de ter implementado políticas, em parte, de fato responsáveis pela emergência de umanova classe média”, que nós chamamos aqui de “batalhadores”, a esquerda manteve, no nível de sua estética e representações, uma imensa má vontade em relação aos valores dessa classe emergente, fechando as portas para uma aproximação programática e para a própria inteligibilidade de seu discurso.

O primeiro elemento desse fechamento e talvez o mais tosco consiste no conclamado ódio nutrido pela entidade abstrata que se convencionou chamar de “classe média”. Não há uma única pesquisa que mostre que a classe média brasileira possua posições políticas mais retrógradas que “os pobres” e nem que haja, nos estratos de renda média, uma única posição política consolidada. Apesar, é claro, de um avanço conservador, nos últimos anos, poder ser verificado em todas as classes e estratos sociais.  

Apontar esse fato não significa negar a existência de posições retrógradas em um nível alarmante, nem negar a vocação colonial das elites brasileiras, mas sublinhar os riscos que a reificação de uma imagem de classe traz ao cultivo de um imaginário progressista.

Pode-se dizer que um dos erros contido nesse “ódio” é que a condição de classe média, compreendida como um mínimo de conforto material e segurança familiar, é aspiração quase que universal e legítima nos dias atuais, à qual muitos almejam alcançar e da qual muitos lutam para não sair.

Ao cultivar esse ódio irracional, a esquerda parece esnobar boa parte das lutas cotidianas das pessoas comuns do País, seja para fechar as contas no final do mês, seja para garantir o sustento dos filhos. Quando não, para fugir ou remediar a dolorosa realidade atual do desemprego.   

O reverso do ódio à classe média tem se materializado em outro erro, que chamamos de cultivo da estética do “pobrismo”. Uma vez indisponível a figura do operário modelo, o pobre, o flagelado ou, de modo mais idílico, os povos tradicionais, transformaram-se em horizonte estético da esquerda, operando um fechamento para os horizontes de vida possíveis e um afastamento de aspirações legítimas das maiorias desorganizadas do País.

Se por um lado sonhar com um eletrodoméstico soa quase como uma traição de classe, um atestado de ser “manipulado” ou mesmo exemplo do “erro” da estratégia de inclusão pelo consumo, o pobre só “prestaria” para esquerda quando assumisse com orgulho sua condição de destituído, isto é, sem os vícios típicos dos “pequenos burgueses” e seus sonhos de ascensão material.

Isso, é lógico, quando muitos dos intelectuais de esquerda já têm acesso aos mesmos bens desejados pelos batalhadores.

Quando se cruzam no mundo produtivo, o ódio à classe média e o pobrismo transformam-se em negacionismo das experiências de empreendedorismo dos batalhadores. O sonho com o negócio, a busca de autoajuda e mesmo redes cooperativas ligadas à religião são reduzidos a “dispositivos funcionais de controle” ou captura pela “ideologia capitalista”.

Batalhadores são lembrados a todo o tempo que “não são um deles” ou que são simplesmente “massas de manobra” de empresários e pastores. 

É preciso entender que se, como mostram algumas pesquisas, mais de 40% dos moradores de favelas sonham em ter seu próprio negócio, não o fazem somente por vocação (ou manipulação), mas também por necessidade. Nos dias que correm, o “empreender” é tanto a possibilidade que resta aberta para uma vida melhor quanto uma necessidade imediata de prover a si mesmo e a sua própria família diante da crise do assalariamento.

Disso não se segue, é claro, que os setores progressistas devam comprar totalmente o “discurso do empreendedorismo” ou a própria linguagem dos batalhadores tal como se apresenta. Uma das faces mais perversas da “ideologia do empreendedorismo” consiste na tentativa de culpar os pobres pela própria pobreza e ilidir os fatores estruturais das desigualdades e privações nas sociedades atuais. Não se pode, contudo, confundir o empreendedorismo com sua ideologia.

Em vez disso, o ideário da esquerda deveria compreender que há no mundo produtivo um processo aberto e em disputa, que exige de nós abertura a múltiplas fontes teóricas. Isto não significa capitular ao espírito do tempo, mas sim manter-se à altura da complexidade social que caracteriza o mundo atual. É preciso ver, por exemplo, na crise do assalariamento e o consequente “escape” pelo empreendedorismo, não uma capitulação, mas uma nova oportunidade de emancipação.

Isso nos leva, por consequência, à necessidade de cultivar alternativas não-estatistas, que poderíamos chamar de um “liberalismo popular” ou “experimentalismo democrático”. Abraçar essas alternativas não significa abandonar a aspiração emancipatória do socialismo dos séculos XIX e XX, mas revisitar seus próprios fundamentos.

Não esqueçamos que autores como Marx sempre tiveram o valor da autonomia individual como parte central de seus ideários políticos. O comunismo previa a conquista, por meio da luta social, daquilo que a sociedade de então não podia oferecer: a liberação do potencial de produtor autônomo de cada indivíduo.

O erro de Marx, é claro, foi não ter antevisto as consequências anti-democráticas da planificação, mas qualquer projeto que deseje revisitar os fundamentos de Marx sem incorrer em seus erros deve assumir que o caminho para uma sociedade de produtores autônomos precisa estar baseado em algum tipo de organização econômica que valorize a iniciativa e a autonomia individuais.

Um projeto desse tipo passa na maioria das vezes por fora do Estado, mas exige também outro modelo de Estado para que possa florescer.

Um novo projeto de esquerda deve combinar a energia autônoma dos pequenos negócios, cooperativas e empreendimentos com um novo desenho das instituições, que vá além da distribuição marginal da renda e do discurso da equidade que até agora marcaram, para o bem ou para o mal, a experiência da esquerda no poder.

Se por um lado um programa desse tipo baseia-se na democratização do acesso dos pequenos e médios empreendimentos ao crédito e a oportunidades de capacitação e escala que lhes são negados pelo neoliberalismo, por outro radicaliza o projeto da esquerda, recolocando a questão estrutural da reorganização da economia e das oportunidades no centro do debate político.

Ao invés de ignorar ou esnobar essa força que surge nas periferias brasileiras, a esquerda deveria valorizar a linguagem política que prioriza o sonho da autonomia individual, coletivamente construído e sustentado nas famílias e igrejas periféricas. Trata-se de terreno muito mais fértil do que aquele orientado por ideias coletivistas vagamente professadas, restritas a corporações e movimentos tradicionais.

Isso porque permite tanto que os setores progressistas mobilizem uma nova base para bandeiras históricas, como a democratização do crédito produtivo e a reorganização do sistema financeiro, mas também a abertura a novas formas de construção de prosperidade individual e coletiva.

A aliança entre e a esquerda e os batalhadores está longe de ser automática. O discurso destes hoje, não sem motivos, mistura uma profunda desconfiança na política com a crença de que o Estado deve prover infinitas demandas. Se a esquerda conseguirá se encontrar programaticamente com a energia dos batalhadores, é uma questão aberta.

Algo, no entanto, não parece estar em aberto. Ao manter o discurso do ódio à classe média, da estética do pobrismo e da nostalgia mal confessada da planificação, caminhamos para uma fragorosa derrota histórica. Contra a redução estética, defendemos que a esquerda precisa fazer sua opção preferencial pela riqueza. Não para cultivar a cultura do descarte, mas para promover o reencontro com as aspirações e possibilidades de prosperidade colocadas pelo nosso tempo. 

*David Carneiro é doutorando em Filosofia do Direito pela UERJ. Foi pesquisador visitante da Harvard Law School e consultor legislativo. Roberto Dutra, doutor em sociologia pela Universidade Humboldt, é professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense

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Fonte:http://www.cartacapital.com.br/blogs/o-brasil-no-mundo/odio-a-classe-media-201cpobrismo201d-e-empreendedorismo

Bresser: “A PEC 241 é feita para a classe rica que patrocinou o golpe e essa onda de ódio”.

27.10.2016
Do blog DIÁRIO DO CENTRO DO MUNDO, 21.10.16
Por 

Bresser

Luiz Carlos Bresser Pereira foi entrevistado no programa do DCM na TVT desta semana.

Bresser nos recebeu em sua casa no Morumbi na tarde em que Cunha foi preso, um dia depois do artigo de Lula na Folha, intitulado “Por que querem me condenar”.

Ex-ministro da Fazenda no governo Sarney e ministro da Reforma do Estado e, depois, da Ciência e Tecnologia de FHC, Bresser tomou o caminho oposto ao dos ex-colegas.

Enquanto eles foram para a direita, Bresser tornou-se um crítico contumaz do que chama de desmonte do estado social brasileiro. Fundador do PSDB em 1988, saiu em 2011. Posicionou-se firmemente contra o golpe e esteve presente a diversos atos pela democracia — mantendo suas discordâncias relativas ao rumo da economia sob Dilma.

“Cunha tinha que ser preso, já era esperado com a ficha corrida que ele tem”, diz ele.

“Isso pode servir para alegar imparcialidade na hora de pegar Lula. O objetivo da Lava Jato é atacar o PT e Lula. O PT eles já pegaram. Do Lula, não encontraram nada. Insistem em dizer que ele é chefe de uma ‘organização criminosa’. Gastaram milhões e encontraram o sítio que ele usou emprestado e o apartamento no Guarujá. O artigo dele à Folha é coisa de estadista”.

Bresser acredita que há uma caça às bruxas contra a política. “Um país que tem a classe política desmoralizada pela direita e pela esquerda é um país sem rumo”, afirma.

A PEC 241 serve, em sua opinião, para atender “a classe rica dominante que patrocinou o golpe e essa onda de ódio”.

“Eles dizem que temos uma crise fiscal. Temos, na verdade, uma dívida fiscal causada por uma imensa recessão. As causas foram a queda do preço das commodities no segundo semestre de 2014”.

“A PEC não vai ter nenhum efeito agora. O objetivo é desmantelar o estado do bem estar social e destruir o SUS e a educação fundamental.”

A alternativa, segundo ele: “Imediatamente baixar a taxa de juros e abrir linha especial de crédito para salvar as empresas, para elas saírem do buraco”.

“Isso tudo é a aplicação da cartilha neoliberal. O neoliberalismo só é eficiente quando há perda de controle das finanças públicas, o que não é o nosso caso. A crise financeira agora é das empresas, e não do estado. A política liberal nunca promoveu desenvolvimento econômico no mundo. Sempre fracassou, mas é uma religião para o setor financeiro, para rentistas e para os economistas orgânicos desse capital rentista”, enumera.

Em sua opinião, o artífice da PEC não é o governo Temer. Há uma espécie de prestação de contas.

“O PMDB não tem ideologia. Quando o PSDB perdeu as eleições e Aécio pediu o impeachment, o Moreira Franco falou: ‘Essa é a nossa chance. Vamos fazer uma profissão de fé neoliberal e ganhar a confiança dos rentistas. Aí fizeram aquele documento ‘Ponte Para o Futuro’”, diz.

O grande estelionato eleitoral está sendo cometido por Michel Temer, considera o professor. “Se ele foi eleito como vice de Dilma, como pode estar fazendo agora exatamente o contrário do que vinha sendo feito?”

Ele guarda amizade por Fernando Henrique Cardoso (não lhe pergunte sobre Serra), que não encontra há tempos. Mas de sua antiga agremiação partidária quer distância.

“O PSDB é a UDN atual. É um tipo de partido que, para o Brasil, é um desastre. Eles não têm nenhuma ideia de nação, não têm nenhuma ideia do que seja a defesa dos trabalhadores e dos pobres. É um partido elitista, dependente e colonialista”.

Eis os destaques do programa:

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Fonte:http://www.diariodocentrodomundo.com.br/bresser-a-pec-241-e-feita-para-a-classe-rica-que-patrocinou-o-golpe-e-essa-onda-de-odio-por-kiko-nogueira/